Médicos cubanos param de atender em Embu; região perde quase 60 profissionais

Especial para o VERBO ONLINE

RÔMULO FERREIRA
Reportagem do VERBO ONLINE, em Embu das Artes

Os profissionais de saúde cubanos que trabalhavam em Embu das Artes pelo “Mais Médicos” deixaram de atender a partir desta quarta-feira (21), de acordo com o governo Ney Santos (PRB). Outros dois municípios da região, Itapecerica da Serra e Embu-Guaçu também estão sendo afetados pela saída de Cuba do programa, após o presidente eleito Jair Bolsonaro (PSL) indicar mudanças nas regras de contratação. No total, a região perderá 55 médicos do país caribenho.

Em 2015, a médica cubana
Em 2015, a médica cubana Gipsi González faz atendimento domiciliar a paciente morador do Valo Verde, Embu
Primeiras médicas cubanas que atenderam população de Embu
Primeiras médicas cubanas que assistiram população de Embu têm evento de boas-vindas na Câmara, em 2013

Cuba anunciou há uma semana, na quarta (14), o fim da participação do país no “Mais Médicos”, depois que Bolsonaro se posicionou contra as diretrizes acordadas, na gestão Dilma Rousseff (PT). O presidente eleito critica a qualificação dos médicos cubanos e defende que o contingente faça exame de revalidação do diploma, além de não aceitar que o dinheiro pago pelo Brasil seja repassado a Havana – 70% são destinados ao governo e 30% ficam com os cubanos.

A embaixada de Cuba comunicou o Conasems (conselho de secretários municipais de Saúde) que os profissionais do país já começariam a deixar o atendimento nesta terça-feira (20), para organizar o retorno à ilha. Na segunda, porém, o ministro Gilberto Occhi disse que a orientação era que os municípios fizessem o desligamento dos cubanos após a chegada de novos médicos, prevista para 3 de dezembro. O “Mais Médicos” tinha 8.332 cubanos, 51,6% do programa.

Embu, que contava com 20 médicos cubanos, é a cidade mais prejudicada da região – os profissionais atendiam nas UBSs Santo Eduardo, Independência, São Marcos, São Luiz, Santa Tereza, Nossa Senhora de Fátima, Mimás, Eufrásio/ Jardim Silvia e Itatuba. Indagado se Embu já estava sem os médicos cubanos, o secretário José Alberto Tarifa (Saúde) confirmou a falta. “Sim, hoje já não foram trabalhar. O governo cubano antecipou a saída deles”, disse Tarifa ao VERBO.

No fim da noite de ontem, às 22h18, a prefeitura de Embu emitiu informe à população de que “o governo de Cuba enviou ordens” para que os médicos do país no programa “Mais Médicos” não atendam mais no país a partir desta quarta-feira, “sendo antecipado o encerramento do contrato que iria até 20/12”. “Nossa cidade perde desta forma 20 profissionais que atendiam nas UBSs, dificultando assim o atendimento à população nestes próximos dias”, disse.

O governo informou que “abrirá imediatamente contratação emergencial de médicos para repor esta perda no quadro médico o mais rápido possível, respeitando todos os princípios da lei”. “Paralelamente, aguardamos o processo seletivo do Ministério da Saúde, para repor a perda destes profissionais em todo o Brasil. Contamos com a compreensão de todos!”, diz. A saúde sob a gestão Ney vive quadro de caos com filas, falta de remédios e mortes suspeitas em unidades.

Embu recebeu as primeiras profissionais de Cuba – seis mulheres – ainda em 2013, quando foi lançado o programa. Em recepção festiva na Câmara Municipal, Maria Duany, 54, Maricel Herrera, 51, Maria Hernandez, 50, Maricel Cespédes, 46, Maria Guevara, 43, e Maria Arminan, 41, “juraram” fazer atendimento de qualidade e com dedicação aos pacientes. Elas disseram ainda que chegavam para se “somar” aos médicos brasileiros no atendimento, e não se “contrapor”.

Elas disseram à época ter pelo menos 20 anos de medicina, em clínica-geral, inclusive em países como Guatemala, Venezuela, Bolívia e China. “Estamos aqui para atuar com amor, humanidade e solidariedade, queremos partilhar nosso carinho”, disse Maria Duany. Em julho, uma outra médica cubana teve de partir, mas cumpriu a missão. “Minha mãe foi muito bem cuidada pela dra. Marisol, que foi embora e a deixou muito bem amparada”, disse o morador Cesar Vieira.

Em Itapecerica, dos 21 profissionais do “Mais Médicos”, 19 são cubanos e estão de partida. Pelo menos dez unidades de saúde ficarão sem médicos. O programa foi fundamental para que Embu-Guaçu estruturasse a atenção básica. “A gente fazia os concursos, mas pouca gente participava. Nossa rede virou realidade pelo programa. De 2016 para 2017, tivemos uma redução de mortalidade infantil de 14% para 6%”, disse a secretária Maria dos Santos (Saúde) ao “El País”.

Dos 18 médicos formados no exterior que chegaram a Embu-Guaçu, 16 são da ilha caribenha – dois são brasileiros. “Vamos perder quase 100% dos nossos médicos. Estamos muito inseguros por não saber como vai ser. Ficaremos totalmente descobertos na atenção básica”, disse Maria. Taboão da Serra também possui profissionais estrangeiros a serviço do município pelo programa, oito, mas nenhum é cubano, e não terá o atendimento afetado pela medida.

> Colaborou o repórter Adilson Oliveira, especial para o VERBO ONLINE, em Embu das Artes
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