Mário Aparecido, fundador da ‘Folha do Pirajuçara’ e figura histórica da imprensa, morre aos 64 anos

Após preparar a edição de aniversário de 26 anos do veículo, jornalista estava a caminho para fazer a distribuição na região, quando sofreu um infarto - faleceu trabalhando

Especial para o VERBO ONLINE

Jornalista Mário Aparecido ao receber o título de 'Cidadão Taboanense', em 2019; ele, que perdeu a visão em 2006, morreu de infarto nesta 5ª, em Peruíbe (SP) | Gabriel Binho/Verbo

O jornalista e professor Mário Aparecido de Souza, fundador do jornal “Folha do Pirajuçara”, morreu nesta quinta-feira (27), aos 64 anos, de infarto, em Peruíbe (litoral de SP). Idealizador de um dos veículos de imprensa mais longevos do sudoeste da Grande São Paulo, figura histórica do jornalismo regional, professor Mário, como chamado carinhosamente, deixa uma contribuição inestimável de quase três décadas de reportagens e artigos sobre a história das cidades locais.

Mário enfrentava sérios problemas de saúde desde quando perdeu totalmente a visão, em 2006, devido a diabetes severa, mas teve o quadro agravado por complicações cardíacas nos últimos anos. Ele, no entanto, nunca deixou a profissão. Após produzir a “Folha” edição de aniversário de 26 anos, ele deixava Peruíbe, onde passou a morar, para fazer a distribuição na região de atuação, quando passou mal. Ele retornou à cidade e foi internado na UPA local, mas não resistiu.

Nascido em Santo André (ABC) em 20 de setembro de 1961, Mário se formou jornalista em 1985 pela prestigiada Faculdade Cásper Líbero. Ele iniciou a trajetória profissional como jornalista e assistente de marketing, no Colégio Radial e na Firestone. Depois, figurou como um dos redatores mais ativos na imprensa local, à frente da edição de veículos como “Notícia Santo Amaro”, “Hora em Ação”, “Folha da Região Oeste”, “Gazeta da Região” e “Correio de Itapecerica”.

Simultaneamente ao trabalho de jornalista, Mário também lecionou em escola pública, de 1992 a 1998, na escola estadual Reynaldo do Nascimento Falleiros, em Taboão da Serra, no Jardim São Salvador (Pirajuçara), para deixar saudade. “Era o melhor professor do ginásio [antiga 1ª à 8ª série]. Todo mundo amava a aula dele – dava física e química. Sempre muito divertido e simpático. Ele estava na minha formatura”, diz a ex-aluna Célia Regina de Oliveira, da turma de 1997.

Em 1999, Mário criou o próprio jornal, a “Folha”. Com a experiência e perspicácia, porém, naquele ano, ele também enveredou pelo setor público e foi diretor de Comunicação da Câmara de Vereadores de Embu das Artes, até 2003, e depois, em 2005 e 2006, atuou na Prefeitura de São Lourenço da Serra, também como responsável pela Comunicação. Mas, com a perda da visão, ele passou a se dedicar integralmente ao periódico que gestou, ao se adaptar à nova rotina.

Resiliente e com apoio da família, Mário imprimiu nas páginas notícias da região, fatos históricos – notadamente com viés antirracista – e a defesa do meio ambiente local, com olhar crítico e inteligência, além de ironia mordaz. Na “Coluna do Pombo”, com frases rimadas, ele criticava prefeitos e outros políticos em narrativas sobre os bastidores não explícitas, mas que davam o recado e fustigavam. “Se a gente que é pombo não fala, ninguém fala”, dizia, em marca registrada.

Mesmo nas reportagens, Mário apontava “abusos”, como no texto que publicou em 9 de março deste ano sobre o pastor Marco Roberto, ex-chefe de gabinete de Ney Santos, em Embu, e atual do prefeito Engenheiro Daniel (União Brasil), usar “um Corolla preto, de placa 003, veículo oficial daquela cidade [Embu], para ir trabalhar em Taboão da Serra”. “Enquanto isso, a população embuense vive reclamando da péssima qualidade do transporte coletivo na cidade”, escreveu.

Pessoa que também abriu as portas da “Folha” a colegas recém-formados, Mário se tornou um dos jornalistas mais respeitados da região, símbolo da resistência e do compromisso com o jornalismo em defesa da população e voltado à transformação da realidade social. Ele disputou três eleições a vereador, em 2004 (Taboão), em 2008 (São Lourenço), e em 2016 (Embu), sem êxito. Mário nunca aceitou injustiça, sobretudo política, e apoiou jornalistas perseguidos.

“Este título não é do Mário Aparecido, é um reconhecimento à categoria, que vem sendo sacrificada, ameaçada, amordaçada, desrespeitada por muito tempo. Quando alguém reconhece a importância do trabalho de um jornalista, é como reconhecesse o trabalho de todos nós, em todas as áreas”, disse Mário ao VERBO, agraciado “Cidadão Taboanense”, em 2019. Aos 20 anos da “Folha”, teve reconhecimento ainda com o título de “Cidadão Embuense”.

Entre as mensagens que encaminhava a este portal, Mário enviou em 2023 uma que faz sentido com o presente luto na imprensa regional, sobre a finitude da vida, intitulada “A Gente Vai Embora”. Ele deixa a incansável esposa Sandra Tereza – quem o levou a tocar o jornal após não mais enxergar -, duas filhas, sete netos biológicos e seis afetivos. Mário será velado nesta sexta (28), a partir das 10h, e sepultado, às 14h, no cemitério Memorial Parque Paulista, em Embu.

REGISTROS DO JORNALISTA E PROFESSOR MÁRIO APARECIDO, DA ‘FOLHA DO PIRAJUÇARA’

Mário Aparecido, professor, na E.E. Reynaldo, em 1997, ao lado da então aluna Célia Regina | Arquivo pessoal

Mário Aparecido, na Câmara de Taboão da Serra, em 2019, indicado para título de cidadania | Gabriel Binho/Verbo

Mário Aparecido, na Câmara de Taboão da Serra, ao ser anunciado para receber a honraria | Gabriel Binho/Verbo

Mário Aparecido recebe o título de “Cidadão Taboanense”, da vereadora Rita de Cássia | Gabriel Binho/Verbo

Mário Aparecido sorri ao receber a maior honraria da cidade onde foi professor admirado | Gabriel Binho/Verbo

Mário Aparecido agradece com carinho a Rita de Cássia (1964-2022) pelo reconhecimento | Gabriel Binho/Verbo

Mário Aparecido, após homenageado, fala à imprensa, agora, como personagem da notícia | Gabriel Binho/Verbo

Mário Aparecido mostra o título de “Cidadão Embuense”, recebido também em 2019 | Gabriel Binho/Verbo

(*reportagem foi atualizada por conta de mudança nos horários de velório e sepultamento, já inseridos no texto)

comentários

  • Professor Mário, que notícia triste…mas ao mesmo tempo em sua lembrança feliz por sido seu aluno na E.E.Dr°Reynaldo do Nascimento Falleiros onde estudei minha maior parte da vida entre a 1a e 8a série, Professor alegre,simpático, dinâmico,atencioso….qualidades de um grande profissional que agora o conhecendo mais através deste artigo.Descanse em paz meu eterno professor, Deus o acolha em Sua Morada,vá em paz!

  • >