O cinema brasileiro fez história e conseguiu uma conquista inédita. “Ainda Estou Aqui”, de Walter Salles, ganhou o Oscar de “Melhor Filme internacional” (estrangeiro), o primeiro do Brasil, neste domingo (2) em Los Angeles (EUA) – obteve o feito após 97 edições da maior premiação da indústria cinematográfica. O longa conta a história real de Eunice Paiva após o sequestro do marido, o deputado exilado Rubens Paiva (1929-71), pela ditadura militar. Ele foi morto pelo regime.
O drama biográfico “Ainda Estou Aqui” superou “Emilia Pérez” (França), “A Semente do Fruto Sagrado” (Alemanha), “A Garota da Agulha” (Dinamarca) e “Flow” (Letônia). Também concorria na categoria de melhor filme, mas perdeu para “Anora”, o romance de uma stripper com um oligarca russo. A atriz Fernanda Torres, que viveu Eunice, ainda disputava o prêmio de melhor atriz. O Oscar foi para Mikey Madison, de “Anora”, maior vencedor da festa com cinco estatuetas.
Ao receber o Oscar, Walter dedicou a conquista a Eunice, que morreu em 2018, aos 89 anos. Após o marido ser preso, ela também foi detida pelos militares, por 12 dias, submetida a interrogatórios. Com Rubens desaparecido, a paulistana Eunice – mãe de cinco filhos – mudou-se do Rio de Janeiro para São Paulo, formou-se advogada e passou a trabalhar ativamente pelos direitos dos desaparecidos políticos da ditadura e familiares e em defesa das populações indígenas.
Walter, que disse, em nome do cinema brasileiro, estar honrado com a premiação, exaltou ainda Fernanda Torres e Fernanda Montenegro, que atua no filme como Eunice já na fase final da vida. A filha entrou para a história do cinema ao repetir a mãe, que foi indicada ao Oscar de melhor atriz em 1999 por “Central do Brasil”, também do cineasta. “Isso vai para uma mulher que, depois de uma perda tão grande em um regime tão autoritário, decidiu não se dobrar e resistir”, disse.
“Esse prêmio vai para ela: o nome dela é Eunice Paiva. E também vai para as mulheres extraordinárias que deram vida a ela: Fernanda Torres e Fernanda Montenegro”, disse Walter. Entre as qualidades do filme apontadas por críticos, estão a capacidade de visitar o passado sem recorrer a dramalhão e “apelos ideológicos” e conseguir dialogar com os tempos atuais, com foco na intimidade de uma família cheia de alegria e superação de uma mulher não entregue ao vitimismo.
A fala de Eunice aos filhos “Vamos sorrir; sorriam”, em foto para uma revista, em espécie de recado de que o governo totalitário (Médici) vencera uma batalha, mas não a luta final por justiça e democracia, é marcante. O repórter do VERBO (nascido naquele tenebroso 1971) ficou paralisado com a coragem e lucidez de uma mulher que não entrou em parafuso com a tortura psicológica e enfrentou a repressão mesmo em silenciamento das próprias dores para proteger a prole.
Rubens foi vivido pelo ator Selton Mello. Após o pai ser preso, Eliana, a segunda filha mais velha do casal, foi levada com a mãe por militares e ficou detida por 24 horas – tinha 15 anos. Fernanda Torres deu uma declaração emblemática a propósito. “Esse filme fala de uma família que tentaram apagar da história. Através da literatura do Marcelo e do filme do Walter, essa família voltou. Ela é a alma do Brasil, é um lado nosso amoroso, que ama cultura, a liberdade, a empatia”, disse.
“A Eunice Paiva lutou pela civilidade e justiça no mundo, fez essa onda de amor. É tão bonito quando uma obra literária move o mundo. As pessoas sentem isso”, destacou ainda Fernanda. Como citado pela atriz, “Ainda Estou Aqui” foi baseado no livro autobiográfico homônimo de Marcelo Rubens Paiva, filho caçula de Rubens e Eunice. O filme já foi visto por 5,2 milhões de pessoas só no Brasil desde a estreia, em novembro. Já o livro foi para o topo das listas dos mais vendidos.
O próprio caso Rubens Paiva passou a outro patamar. Em janeiro, por determinação da Justiça, a certidão de óbito do deputado exilado foi corrigida. No documento ele ainda era tido como “desaparecido político”. Na nova versão, consta agora que Rubens teve uma morte violenta, causada pelo Estado brasileiro. E o Supremo Tribunal Federal decidir analisar se a Lei da Anistia, que “perdoou” crimes na ditadura, se aplica a sequestro e cárcere privado cometidos sob o regime.
Na expectativa do Brasil pela conquista do Oscar, a coincidência de data da maior premiação do cinema com o Carnaval resultou em clima de torcida própria de Copa do Mundo de futebol. Máscaras de Fernanda Torres e de Selton, além de fantasias da estatueta dourada, marcaram desfiles e blocos carnavalescos pelo país. Em Pernambuco, Fernanda foi homenageada como uma das tradicionais alegorias gigantes. “Virar boneco de Olinda, isso, sim, é consagração”, vibrou.
FICHA TÉCNICA

Cartaz de ‘Ainda Estou Aqui’; na vida real, Eunice Paiva (1929-2018)
‘AINDA ESTOU AQUI’ – OSCAR DE ‘MELHOR FILME INTERNACIONAL’
> Elenco: Fernanda Torres, Fernanda Montenegro, Selton Mello, Valentina Herszage, Maria Manoella, Bárbara Luz, Gabriela Carneiro da Cunha, Luiza Kosovski, Marjorie Estiano, Guilherme Silveira, Antonio Saboia, Cora Mora, Olívia Torres, Pri Helena
> Direção: Walter Salles
> Roteiro: Murilo Hauser e Heitor Lorega
> Produção: Maria Carlota Fernandes Bruno, Walter Salles e Rodrigo Teixeira
> Produção executiva: Juliana Capelini, Renata Brandão, Thierry de Clermont-Tonnerre e Lourenço Sant’Anna
> Direção de fotografia: Adrian Teijido
> Montagem: Affonso Gonçalves
> Maquiagem: Marisa Amenta
> Design de produção: Carlos Conti





