Aprígio é prefeito de gabinete, tem que ir para rua, ouvir as críticas e responder com ação, afirma Félix

Na 'Entrevista da Semana', ex-vereador acredita que a secretária Nil 'pode melhorar' governo ao 'levar cultura para periferia'; Aprígio demorou a conhecer a máquina, diz

Especial para o VERBO ONLINE

Félix em 2022; ele diz que Aprígio 'demorou para conhecer o funcionamento da máquina', ao reconhecer que o governo é mal avaliado, mas espera recuperação | Divulgação

O ex-vereador Paulo Félix (PTB) avalia que a filha Nil como secretária de Cultura “pode melhorar” a imagem do governo, mas diz que a reeleição de Aprígio não depende do desempenho de um secretário. Ele reconhece que a gestão é mal avaliada e que Aprígio foi um prefeito de gabinete nos dois primeiros anos. “Tem que concluir as obras paradas, fazer o governo mais voltado para ouvir a população. É ir para a rua, ouvir as críticas e responder com ação”, afirma.

Félix diz esperar que Aprígio se recupere para 2024. “Nos primeiros dois anos, o Evilásio foi horrível. Depois, se recuperou. A expectativa é que neste ano e no próximo o Aprígio possa imprimir sua marca”, diz. Questionado se, em vez de Aprígio, quem governa são Eckstein Junior e Mario de Freitas, ele diz não ter “base para responder” – negou se esquivar. Félix conversou com o VERBO na quinta-feira (23). Informou com exclusividade a este portal a posse de Nil, ocorrida no sábado.

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VERBO – [No início da entrevista, Paulo Félix relaciona a escolha de Nil para a Secretaria de Cultura como resultado do posicionamento de Aprígio na eleição presidencial].
Paulo Félix –
Foi a questão nacional. O Aprígio teve o mérito de ficar do lado certo da história, do Lula [candidato a presidente Luiz Inácio Lula da Silva, do PT], do Haddad [do candidato a governador Fernando Haddad, do PT], do Márcio França [candidato a senador, do PSB]. Porque se não fosse a vitória do Lula, o que seria do povo yanomami [sobre os indígenas sem assistência médica durante o governo Jair Bolsonaro]? O que seria deste Brasil, do respeito internacional que voltamos a ter? A gente tem uma visão mais universal das coisas. Acho que a idade trouxe isso para mim, viu? Olhar a questão municipal e ver de que lado cada um ficou na última eleição. [Aprígio] Teve o mérito de trazer o Lula aqui no Taboão – eu até te dei uma entrevista, a gente conversou sobre o comício do Lula. Isso foi um fator de aproximação muito grande. [Também] A postura dele [do prefeito] em relação aos projetos habitacionais, da facilidade da Secretaria de Habitação ter aberto um canal de diálogo com os movimentos sociais, com o movimento habitacional. Isso é importantíssimo para nós.

VERBO – E nesse contexto entra a conversa para a Nil assumir a Cultura?
Félix –
Não. Nesse contexto entra um convite, que partiu do governo, para assumir a Secretaria Municipal de Cultura. E não foi uma conversa fácil. Foi uma conversa de meses. Por isso a Nil não se posicionou antes, até porque até esses dias não tinha nada certo. Era uma construção. Não era só ter cargo. A Nil quer fazer política cultural. Ela não quer [só] ganhar salário. Não é essa a questão. Ela tinha outros convites, ia ser assessora parlamentar na Assembleia Legislativa da Ediane Maria [do PSOL], que foi a deputada que nós [movimento de moradia] apoiamos, eleita com 175 mil votos. Ela já tinha convite para lá. Eu também tenho convite para outras coisas. Vou fazer uma cirurgia nos olhos na segunda-feira [neste dia 27]. Vou ser se consigo recuperar a visão do olho esquerdo. O olho direito está mais comprometido, tem [requer] uma cirurgia mais longa, mais complicada. Eu não posso assumir nada agora, tenho que cuidar da saúde. Estou ficando cego, um problema sério. Mas a [no caso da] Nil, foi um processo de discussão, que envolveu, inclusive, o movimento popular. Precisou falar com o Guilherme Boulos [líder do MTST e eleito deputado federal]. Fomos conversar com o MTST, com o MST [movimento sem-terra de Taboão, do qual é coordenador]. Fomos ouvir. Não foi uma decisão individual ou solitária, tem muita gente envolvida na conversa para chegar nesse desfecho [Nil assumir a pasta].

VERBO – E quando foi batido o martelo?
Félix –
Foi sexta-feira… Foi nesses dias, antes do Carnaval. Na semana que antecedeu o Carnaval. Até lá só tinha especulação, não tinha nada definido. Bater o martelo mesmo foi [após] uma conversa de mais de quatro horas com o prefeito, com a participação da Nil e minha.

VERBO – A conversa foi onde?
Félix –
Lá no gabinete do prefeito. Foi na quinta ou na sexta [dia 16 ou 17]. Mas foi na semana passada [retrasada]. Bater o martelo mesmo foi na semana passada [retrasada]. […] E a Nil está muito… Foi estudar, foi ver o que é Lei Rouanet, o que é Lei Aldir Blanc, o que é Lei Paulo Gustavo, quais são os coletivos que existem na cidade, abrir diálogo com os coletivos, com a cultura de todas as tribos. Ela está muito preparada, com muita vontade de fazer as coisas.

VERBO – Justamente, os ativistas culturais criticam a gestão de Binho por conta da não ter viabilizado, efetivado essas políticas para os artistas de Taboão da Serra. É um compromisso da Nil então.
Félix –
Da Nil, você pode esperar diálogo à exaustão com todos os setores. A Nil é uma ativista. Ela é mais ativista do que eu. Na rede social, ela vai para o enfrentamento, com os racistas, com o pessoal… Ela é antirracista, é antifascista. Nil é da pá virada. Mais do que eu, viu? Mais do que eu.

VERBO – Puxou o pai…
Félix
– Puxou o pai melhorado, sabe? [ri]. Acho que ela puxou as virtudes do pai – ainda bem que os defeitos, ela não tem… E a Nil é concursada da prefeitura há 12 anos. Ela entrou pela porta da frente. Foi coordenadora do “Mais Educação” [programa do Ministério da Educação em parceria com as prefeituras], foi supervisora de ensino, de formação de professores. Ela é pedagoga, pós-graduada em educação, bacharel em direito. Ela tem os atributos intelectuais para exercer a função. Ela não está indo só porque é filha do Paulo Félix. Na verdade, hoje… ‘Ela é filha do Paulo Félix’. Logo, logo, [vão falar] ‘Ah, não, o Paulo Félix é pai dela’. Vai ser diferente. Ela vai ser conhecida por ela e eu vou ser conhecido por ela também. Essa é a minha esperança.

VERBO – Parece inegável que a ida de Nil seria uma estratégia do governo, do prefeito de tentar a reeleição [ao ter o apoio dela, entre outros de peso], uma vez que a Nil foi muito bem votada na última campanha. Isso também entrou no foco?
Félix –
A reeleição é um conjunto de coisas. Eu acho que a entrada de Nil [na administração] melhora… A minha expectativa é que vai melhorar o desempenho do governo em várias coisas. A Nil é um quadro que pode melhorar o governo se fizer as coisas que pensa em fazer: ter diálogo, levar a cultura para a periferia, fazer cultura para valer, não só as grandes coisas [eventos]. Cultura é uma construção do dia a dia. Não é trazer os famosos para cá para ganhar dinheiro e ir embora. Se a entrada da Nil melhora em alguma coisa os aspectos da cidade, é positivo para o governo. E nós queremos, na verdade, que a cidade dê certo! Se o governo Aprígio é um grande governo nestes dois anos que faltam, quem ganha é a cidade, é a sociedade. A reeleição é fruto do conjunto da obra, não é o desempenho de um secretário ou outro que vai determinar isso. É lógico que quando se faz uma aliança os dois lados ficam mais fortes. O princípio da aliança é este: se eu me alio com você, eu fico mais forte, mas o Adilson fica mais forte também. Esse é o princípio que deve nortear qualquer aliança. […] E lógico, nós somos leais, nunca saímos pela porta dos fundos de nenhum dos governos, de nenhuma coisa em que a gente esteve junto – começa um projeto, vai até o final, ganhando ou perdendo, e depois, cumpriu aquela etapa, está livre para cumprir outra. Essa aliança pode ser boa para a cidade. Pode não. Estou seguro: vai ser boa para a cidade; vai ser muito boa.

VERBO – Aprígio vai ter uma soldado de grande brilho e desempenho?
Félix – Eu espero que sim. Tem tudo para ser. Tudo. Tem preparo, disposição, tem diálogo com vários setores. […] Tem tarefas imediatas, por exemplo, a Paixão de Cristo, que não foi feita [nos últimos três anos] por conta da pandemia [da covid-19]. Vamos ver se neste ano… Está em cima da hora, mas a Nil está debruçada nisso, já viu a questão do orçamento, como funciona… Tem ensaios no Cemur todos os domingos, que ela vai acompanhar. Tem desafios imediatos a serem feitos.

VERBO – O governo Aprígio está sendo muito criticado, tem má avaliação dos moradores, que nas ruas dizem que a cidade está mal administrada. Qual a sua avaliação?
Félix –
Eu fiz uma comparação com os primeiros dois anos do governo Evilásio [Farias, em 2005 e 2006] – no primeiro mandato do Evilásio, eu era vereador. Foi um terror, foi horrível. Só que nos dois anos seguintes, Evilásio fez um governo que permitiu que enfrentasse o antecessor, o Fernando [Fernandes], com 70% de avaliação positiva. Nos primeiros dois anos ele não conseguiu pôr a marca dele. Mas nos dois últimos anos o Evilásio se recuperou de uma tal forma que venceu o Fernando Fernandes bem avaliado, no confronto direto. A expectativa que eu tenho é que neste ano e no próximo o Aprígio possa imprimir sua marca. Fui vereador com Aprígio oito anos, conheço a personalidade dele. Todo mundo faz esta distinção: Aprígio pessoalmente é um cara legal, mas administrativamente precisa impor sua marca. A minha expectativa é essa. A cidade tem orçamento, é um dos maiores da nossa região. Eu acho que é possível que o governo [o Aprígio] faça um grande governo nestes dois anos. É a nossa expectativa.

VERBO – Mas qual é a sua avaliação, como cidadão, como quem vive a cidade, gosta de ouvir as pessoas, sobre o governo Aprígio?
Félix –
Nestes dois anos teve uma questão [de dificuldade para o governo] que foi o conhecimento da máquina [como a prefeitura funciona]. A iniciativa privada é uma coisa. A coisa pública funciona de outro jeito. Na iniciativa privada, você manda e a coisa funciona imediatamente. Na coisa pública, não – [você fala] ‘Faz isso’, [mas] tem licitação, lei 8666, lei de improbidade. O pessoal demorou muito tempo para conhecer o funcionamento da máquina. Agora, com o conhecimento da máquina, acho que é possível fazer um grande governo e recuperar o tempo perdido. Se depender do que eu puder fazer, dar minha opinião, tem que concluir as obras paradas, fazer governo voltado para ouvir a população, ouvir as críticas, dialogar com o povo. É ir para rua, conversar, ‘Ah, está acontecendo um problema lá na UBS Suiná [onde 300 pessoas ficaram na fila desde a madrugada para marcar uma consulta no mês passado]. ‘Pô, vamos lá ver. O que está contecendo?’ E se o povo tiver que falar, tem que ouvir. Ninguém vai criticar só pela crítica – tem a maioria silenciosa, a maioria que não se manifesta. Tem que que ter esse olhar, pegar [encarar] as críticas de frente, as críticas têm que ser ouvidas. Um governante tem que ouvir as críticas e responder. Responder com ação afirmativa às críticas existentes. Mas a minha esperança – é esperança mesmo – é que o governo imprima a sua marca e faça as coisas acontecerem. Tem tudo para que isso aconteça.

VERBO – Há a avalição – uma crítica – de que Aprígio é um prefeito de gabinete. Entende assim?
Félix-
Eu disse isso. Disse com outras palavras. Até citei uma situação real: está acontecendo um problema na UBS Suiná, tem que ir lá e ouvir as pessoas. Não só na UBS Suiná. Onde tiver problema, o prefeito tem que pôr a cara, sim! Ouvir, e ter humildade, [reconhecer] ‘Aqui está errado, vamos consertar!”. Prefeito é isso, ouvir e dar as determinações para que os erros sem corrigidos. E a minha visão do Aprígio, inclusive, não é de um homem de gabinete. Aprígio é um homem de construção, de obras. Eu vejo o Aprígio como um cara que vai construir, fazer as coisas. Com o capacete branco, vai para a obra. A grande marca que o governo do Aprígio deveria impor seria de construir, de cuidar, de [fazer] zeladoria da cidade, deixar a cidade limpa, recapear asfalto, cuidar da saúde, da cultura. A educação de Taboão sempre foi bem reconhecida, de alta qualidade, tanto é que pais tiram filhos da escola particular e manda para a escola pública. Educação nunca foi um problema. Mas a saúde é um problema crônico, que, aliás, vem de vários governos. Tem que ter uma atenção realmente especial para a questão da saúde.

VERBO – Já que citou o ex-prefeito, no segundo mandato, Evilásio teria perdido a mão do governo por deixar aos ‘cuidados’ – se é que posso usar essa palavra – de dois ou três secretários. A exemplo de Evilásio, a avaliação é de que Aprígio não governa, não é o prefeito [de fato], mas sim dois ou três secretários, proeminentemente, Wagner Eckstein Junior [Administração] e Mario de Freitas [Governo] – seriam as pessoas que mandam na administração. Acredita nisso, tem essa opinião. Se tem, atribui isso à má avaliação do governo?
Félix –
Não tenho profundidade [sobre o assunto para avaliar]… Eu seria muito leviano. Eu não acompanhei, realmente, essas questões internas do governo Aprígio, a questão de mando. Não teria uma base suficiente para emitir minha opinião. Eu me reservo em não dar. Não é por se esquivar, não. É por desconhecimento do funcionamento interno da máquina. Realmente, não teria como fazer esse julgamento, dar opinião embasada sobre essa questão.

OUÇA A ENTREVISTA DO EX-VEREADOR PAULO FÉLIX SOBRE NIL SECRETÁRIA DE CULTURA E GOVERNO APRÍGIO

Foto: Divulgação



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