Agentes de Embu recolheram ‘santinhos’ de Ely e Jones entre vítimas, diz familiar

Especial para o VERBO ONLINE

Renato com jaleco da Defesa Civil no acidente; Ely sorridente após ser mostrada por Ney com ar triste; 'santinho' com nº de Ely e Jones entre corpos | Divulgação

ALCEU LIMA
Especial para o VERBO ONLINE, em Embu das Artes

Membros da Defesa Civil de Embu das Artes não tiveram como única preocupação auxiliar no socorro às pessoas que estavam no auditório que desabou na empresa em Itapecerica da Serra, na terça-feira (20), mas também remover “evidências” para ocultar que o acidente ocorreu durante reunião de campanha dos candidatos a deputado estadual Jones Donizette (Solidariedade) e a deputada federal Ely Santos (Republicanos), denuncia o familiar de uma vítima.

A reunião em que Jones e Ely pediram voto aos funcionários da Multiteiner Comércio e Locação de Contêineres acabou em tragédia. Nove pessoas morreram – todas empregadas da empresa – e 31 ficaram feridas no desabamento da estrutura. Segundo o Corpo de Bombeiros, 64 pessoas estavam no local. As vítimas fatais (sete mulheres e dois homens), eram jovens, de 20 (duas), 25, 26, 27, 32, 35 (duas) anos – uma colaboradora tinha 47 anos.

Os candidatos afirmam ter sofrido ferimentos no desabamento. Jones chegou a postar uma foto com a camiseta suja. Ely publicou um vídeo em que aparece sentada no chão ao lado do galpão em escombros e depois deitada em uma cama em pronto-socorro. Eles, porém, não figuraram na lista de feridos. Avisado do acidente pela irmã, a Ely, o prefeito Ney Santos (Republicanos), de Embu, foi um dos primeiros a chegar à empresa, no bairro do Potuverá.

Padrinho político de Ely e Jones, Ney gravou o auditório em escombros e chegou a dizer “aí, gente, o livramento que eles tiveram”, ao se referir a Ely, Jones e a equipe dos dois candidatos, mesmo com a morte de pelo menos de três pessoas nas primeiras horas. Horas depois, ele postou um vídeo em que diz que, no local, acionou “toda a estrutura da prefeitura municipal de Embu das Artes”, a Defesa Civil e outros serviços, “que também chegaram rápido”.

Agentes do órgão voltado a prestar socorro a cidadãos e minimizar desastres não se concentraram apenas em ajudar no resgate das pessoas sob a laje do auditório que ruiu, segundo um familiar de uma das vítimas do acidente na empresa. “A Defesa Civil do Embu ‘tava’ lá no cenário mais preocupada em recolher o material de campanha do que com o caso”, disse o parente em depoimento a que o VERBO teve acesso, ao se referir aos candidatos Jones e Ely.

O familiar disse que “fiquei lá o dia inteiro” na ocasião e citou relato de que viu “eles ‘mechendo’ em corpo pra tirar os santinhos dos bolsos”, sobre a ação de agentes. Não só servidores da Defesa Civil, porém, estavam com uniforme do órgão. Outras pessoas que não pertencem aos quadros da instituição vestiam o jaleco e tiveram livre acesso ao galpão do acidente, como o vereador Renato Oliveira (MDB), outro afilhado político de Ney e aliado de Jones e Ely.

Após o desabamento, Jones postou que ele e Ely “foram convidados […] para conhecer a empresa”. Já Ney falou que o auditório “desabou durante uma visita deles [Ely e Jones] à empresa”. Mas, conforme registro do familiar, durante o processo de liberação das nove vítimas fatais – postas em sacos acetinados -, embaixo de um dos corpos estava um “vestígio” do tipo de evento ocorrido no local, um “santinho” com os números de Ely Santos e Jones Donizette.

O Ministério Público Eleitoral de São Paulo vai investigar a ida de Jones e Ely à empresa. Segundo o MP, “é necessária investigação para saber se o encontro realizado na empresa implicou despesas eleitorais ou constrangimentos ao voto”. “A Procuradoria Regional Eleitoral vai instaurar uma notícia de fato para apurar o caso”, informou. A Multiteiner divulgou nota só quase 24 horas depois do ocorrido e não se manifestou sobre a presença dos candidatos no local.

OUTRO LADO
Questionado sobre a denúncia de que agentes da Defesa Civil recolheram material dos candidatos, e o que foi fazer na Multiteiner no dia seguinte ao do desabamento, na quarta-feira (21), se a empresa fica em outro município e as buscas por vítimas foram encerradas na própria terça, o secretário de Obras de Embu e responsável pelo órgão, Edson Galina, disse que a equipe não teve “acesso aos acidentados”, e que ele retornou à companhia a pedido.

“Depois do acidente apenas pessoas da equipe de socorro tiveram acesso ao local, ainda correndo o risco de novo desabamento. Por isso, eu e minha equipe estávamos na retaguarda caso fosse necessário, mantendo uma distância segura do local e não tendo acesso aos acidentados. [E] Fui convidado pela imprensa a dar entrevista na quarta-feira, e prontamente atendi ao pedido”, afirmou Galina, que se manifestou só após recorrer à assessoria do governo.

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