ALCEU LIMA
Especial para o VERBO ONLINE, em Embu das Artes
A Polícia Federal realiza na manhã desta terça-feira (20) uma operação para apurar um esquema criminoso na gestão da saúde do governo Ney Santos (Republicanos) com foco na AMG (Associação Metropolitana de Gestão), a organização social que gerencia os três pronto-socorros da cidade – PS Central, Hospital Leito do Vazame e UPA Santo Eduardo, os dois últimos que atendem pacientes com covid-19. Pelo menos quatro pessoas foram presas.
A PF cumpre ao todo cinco mandados de prisão, além de 38 de busca e apreensão, expedidos pelo desembargador Paulo Pontes, do Tribunal Regional Federal da 3ª Região. Conduzida pela Delegacia de Repressão a Corrupção e Crimes Financeiros, a investigação encontrou indícios de direcionamento na contratação da AMG, em março de 2019, pela OS não ter capacidade técnica para executar o serviço contratado, além de desvio de recursos públicos.
Após contratada pela gestão Ney, a OS subcontratava serviços de diversas empresas associadas, algumas constituídas poucos meses antes, também sem experiência na área de saúde. Algumas das subcontratadas, após os repasses de recursos pela OS, efetuaram centenas de saques em espécie que somam mais de R$ 18 milhões, realizados de maneira fracionada para burlar o controle contra lavagem de dinheiro do sistema financeiro nacional.
Um dos locais de buscas da PF foi a casa do ex-secretário da Saúde de Embu – atual secretário de Planejamento – Raul Bueno, que mora em Pirapora do Bom Jesus – mais de 60 quilômetros de distância de Embu. Com a chegada dos policiais, Raul tentou se desfazer de um notebook ao jogar o computador no telhado. Ele foi secretário de Saúde de Ney de janeiro de 2019 até o ano passado e é apontado como um dos principais envolvidos no esquema.
Ao G1, o governo Ney disse que “está colaborando com as investigações que estão sendo feitas sobre a empresa AMG, que presta serviço em nosso município”, apesar de alegar que “ainda não tem informações sobre o processo em curso”. O VERBO questionou a secretária Thais Miana (Saúde) sobre a OS contratada pelo governo ser alvo da PF por corrupção, na qualidade de responsável por fiscalizar o serviço contratado pela gestão. Ela não respondeu.
A AMG é alvo de várias denúncias desde que assumiu a saúde em Embu. Entre as irregularidades, atrasa o pagamento dos funcionários com frequência. Uma das ocasiões mais recentes foi em setembro de 2020, mas em janeiro deste ano a OS não pagou de novo o salário de dezembro dos profissionais em dia. “Até o exato momento, o nosso pagamento do mês não foi efetuado. Peço que nos ajudem”, disse uma funcionária à reportagem.
A má gestão financeira, porém, seria só a ponta do iceberg. A denúncia mais robusta, publicada pelo VERBO, foi a do morador João Caetano da Paixão, há exato um ano, de superfaturamento do hospital de campanha – que Ney alardeia ter erguido em tempo recorde. Além de gastar R$ 1.950.000 para montar a “tenda”, Ney contratou a mesma OS, a AMG, para atender contra a covid-19 por R$ 12.749.717,04, por apenas três meses, sem licitação.
Além do mais, segundo a denúncia, a AMG não tem nenhum médico associado e está sediada em Presidente Bernardes (580 km de SP), na residência de Fabio Cardoso Omito, o presidente, um jovem formado em 2019 em veterinária. “A empresa prestará serviços de saúde, contratação de médicos, enfermeiros, técnicos. Pasmem, a Secretaria de Saúde de Embu não gasta R$ 3.599.000,00 por mês com a folha de pagamento”, denunciou Paixão.
A AMG foi criada originalmente em 2004 em Patrocínio (MG) com outro objetivo social, por pessoas simples, sem atuação na saúde. Apenas em 2018 alterou os estatutos para atuar como OS do setor. Tentou entrar em uma cidade da região, participou de concorrência em Itapecerica da Serra, mas foi inabilitada por irregularidades em balanços. Coincidentemente, em 2019 ganhou o contrato em Embu das Artes, de R$ 72.942.322,83, por ano.
“Não tenho nada contra os animais, mas esse cidadão não está habilitado para cuidar de ser humano. Como uma empresa que em 2018 muda a documentação para cuidar de saúde pública e um ano depois tem contrato de R$ 72 milhões? Por isso a saúde de Embu está um caos”, declarou Paixão, ao apontar fraude. À epoca, um policial federal contatou o morador sobre a denúncia. Embu recebeu de recurso federal no combate à covid-19 R$ 33.386.116,19.
O governo Ney e AMG agiriam em conluio, segundo uma fonte ligada à gestão. A então secretária-adjunta Maria Serrano ficou internada no Vazame com covid-19 com enfermeira 24h e foi levada para casa de ambulância-UTI. O VERBO questionou o atendimento “VIP”. “Embora tenha convênio, ela preferiu ser tratada no Embu, mostrando que acreditamos no serviço de qualidade que a prefeitura dá aos embuenses” foi a justificativa – dada por Raul.
A operação “Contágio” investiga desvios de recursos públicos também nas cidades de Itapecerica da Serra e Hortolândia (SP). As fraudes se referem a contratos que superam R$ 100 milhões. Os cinco mandados de prisão são contra o veterinário dono da OS, os ex-secretários de Saúde de Embu – Raul – e de Hortolância, um guarda civil de Cotia que fazia a escolta do dinheiro sacado, também sócio de uma das subcontratadas, e a mulher dele.
> Colaborou a Redação do VERBO ONLINE





