Ônibus da ‘empresa de Ney’ são apreendidos; usuários passam constrangimento

Especial para o VERBO ONLINE

Após passageiros serem obrigados a descer, ônibus que operam em Embu são apreendidos por falta de pagamento; Ney mostra carros em fabricação | Divulgação

ALCEU LIMA
Especial para o VERBO ONLINE, em Embu das Artes

A concessionária do transporte municipal de Embu das Artes, a JTP, sofreu neste sábado (30) uma ação de busca e apreensão de 20 ônibus por decisão da Justiça por falta de pagamento do financiamento da frota. Passageiros passaram constrangimento ao ter de descer de coletivos apreendidos enquanto eram transportados. A JTP opera em Embu desde outubro de 2019 e chegou a ter o prefeito Ney Santos (Republicanos) como “garoto propaganda”.

O Banco Volkswagen entrou com a ação sob argumento de que a JTP atrasou o pagamento dos ônibus zero quilômetro financiados. O banco afirma que a empresa de ônibus possui uma dívida de R$ 8,68 milhões com a instituição financeira. A decisão foi proferida pela juíza Barbara Cardoso de Almeida, que decretou urgência na busca e apreensão pelo risco de o patrimônio ser escondido – parte dos ônibus não teria sido encontrada.

Na apreensão de alguns ônibus, usuários passaram constrangimento ao ter que descer. “Só pode ser brincadeira de mau gosto do nosso prefeito! Hoje indo para o centro de Embu uma oficial de Justiça parou o ônibus!!!! dizendo que não poderia continuar o percurso porque ‘todossss’ estão com busca e apreensão por falta de pagamento!!!!! Por isso todos os ônibus não podem circular, terão que ir para a garagem”, postou uma moradora, indignada.

Os 20 ônibus alvo da apreensão, todos modelo “Neobus Mega U”, são novos (oito ano 2019/2020 e 12 ano 2020) – de placas BTT 8538, BSZ 7338, FPI 6633, EVW 9286, EHL 6731, DAK 0074, DIL 0438, DGA 1899, CUJ 8233, EZP 3656, FQP 0385, GCH 8657, EJK 1938, EWJ 4049, ESE 3124, EWG 0345, EPA 9470, DGN 3942, ESV 3748, CNI 9460. Aliás, são os únicos novos que formavam a frota, como admitido pelo próprio prefeito ao fazer propaganda da empresa.

Em 29 de agosto de 2019, Ney foi a Caxias do Sul (RS) e exibiu nas redes sociais a fabricação de ônibus que iriam circular em Embu a partir de 7 de outubro, pela nova empresa a operar na cidade, a JTP. Entusiasmado, ele, por iniciativa própria, enviou ao VERBO via mensagem de texto uma foto em que aparecia, de óculos industrial, ao lado de um ônibus em fabricação, acompanhado do então vereador e hoje vice-prefeito Hugo Prado (MDB).

Ney até cobrou uma reportagem. “Essa merece uma grande matéria, hein? Quero ver agora sua imparcialidade, viu [fala nome de um repórter]? Anteontem, você meteu o pau no transporte. Agora é hora de você – já que este é um jornal sério – mostrar para a população que agora vai ter uma grande mudança no transporte da cidade. Quero só ver”, disse. Em novo áudio, ele falou, irônico: “Estou ansioso esperando a matéria. Quero ver! Quero veeeer!”.

Contudo, Ney só mostrou o que convinha. Ele escondeu que coletivos ainda mais velhos do que os da antiga empresa estavam sendo “maquiados” para parecerem 0km, em galpão que hoje é a garagem da JTP. No local, a reportagem constatou veículos ainda na cor branca, para serem pintados de azul. Os coletivos já tinham rodado muito, até fora do Estado, tinham no vidro traseiro publicidade e telefone do disque-denúncia do Rio de Janeiro.

Questionado por este portal sobre a frota não ser toda nova mesmo com a troca da empresa, Ney “abriu o jogo”. “Deixa eu te explicar: são 75 ônibus no total. Estão sendo fabricados 20 agora, 2019-2020, conforme edital. Os outros 55 são semi-novos”, admitiu. Os 20 ônibus novos são justamente os apreendidos. Há um ano e três meses, a população testemunha um festival de ônibus quebrados, os velhos, os únicos em operação na cidade agora.

OUTRO LADO
Em nota, a JTP Transportes, Serviços, Gerenciamento e Recursos Humanos Ltda diz lamentar a apreensão dos ônibus, que atrasou “apenas” uma parcela do financiamento e que “não haverá falta de ônibus e impactos nas linhas atendidas, isso porque possuímos frota de reserva suficiente”. Alega que devido à covid-19 tem “enfrentado sérias dificuldades e a maioria dos sistemas não conta com subsídios ou complementações tarifárias”.

Não é o caso de Embu. Conforme apurou a reportagem, a gestão Ney dobrou o valor do subsídio, para quase R$ 1 milhão por mês, apesar de o número de idosos e estudantes transportados ter caído drasticamente por conta também da pandemia. Em nota, o governo diz que “não haverá falta de ônibus nem impactos nas linhas atendidas” – fala em frota de 81 carros – e atesta que “os pagamentos e subsídios estão todos em dia por parte da prefeitura”.

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