Aécio perde eleição com derrota em Minas, e Nordeste é alvo de preconceito

Especial para o VERBO ONLINE




ADILSON OLIVEIRA
Especial para o VERBO ONLINE, em Taboão da Serra

O Nordeste teve peso grande no triunfo de mais quatro anos de mandato da presidente Dilma Rousseff, que venceu nos nove Estados da região, a segunda com mais eleitores do país (38,2 milhões), mas o PSDB já via o voto nordestino como cativo entre PT e PSB herdeiro de Eduardo Campos. Aécio Neves perdeu a eleição ao não vencer no Estado onde nasceu e os tucanos comandaram por 12 anos, dos quais oito com ele próprio como governador – Minas Gerais.

Considerada a votação final dos outros 25 Estados e do Distrito Federal, Aécio teria sido eleito presidente se derrotasse Dilma com mais de 63% votos em Minas, um índice alto, mas que alcançou no Acre – origem de Marina Silva (PSB), que ficou em terceiro e o apoiou no segundo turno -, em Santa Catarina e no mais poderoso colégio eleitoral do país, São Paulo (22,4% do total). Ao invés de fazer bem a “lição de casa”, o tucano perdeu entre os mineiros por 47,59% a 52,41%.

“Apenas um Estado explica a eleição tendo em conta as expectativas do próprio PSDB em fevereiro: Minas Gerais”, avalia o cientista político Humberto Dantas. “A eleição foi 54,5 milhões de votos para Dilma e 51 milhões para Aécio. Em Minas, ela teve 6 milhões contra 5,5 milhões dele. Se a proporção de 70% x 30% que os tucanos esperavam no começo do ano tivesse se concretizado, o pleito teria terminado com Aécio com 53,5 milhões de votos e Dilma com 52 milhões.”

Aécio entre Alckmin (esq.) e apoiadores na região; tucano perdeu em Minas apesar de ter sido governador

Minas, segundo maior Estado em número de eleitores (15,2 milhões ou 10,7% do total), e São Paulo somam 47,2 milhões de eleitores (33,1%). “São maiores que o eleitorado do Nordeste, e São Paulo deu muito voto ao tucano, muito mais do que o PSDB esperava. Assim, se em casa Aécio não ganhou, a coisa ficou ruim para o PSDB. O PT sabia disso, e explorou bem a questão”, diz Dantas. Após 12 anos de PSDB, Minas será governado pelo PT, definido em 1º turno.

“Assim, que os preconceitos contra o Nordeste sejam deixados de lado, varridos, sobretudo porque numa eleição o cidadão é livre para escolher o que entende ser melhor”, adverte o cientista político. Um avalanche de comentários de discriminação contra os nordestinos invadiu as redes sociais após a eleição de Dilma, como um texto postado na página pessoal do vereador de São Paulo Coronel Paulo Telhada (PSDB), ex-comandante da Rota (grupo de elite da PM).

Ele foi o segundo deputado estadual mais votado nestas eleições e assumirá uma cadeira na Assembleia Legislativa de São Paulo a partir de março. “Já que o Brasil fez sua escolha pelo PT entendo que o Sul e Sudeste (exceto Minas Gerais e Rio de Janeiro que optaram pelo PT) iniciem o processo de independência de um país que prefere esmola do que [sic] o trabalho, preferem a desordem ao invés da ordem, preferem o voto de cabresto do que a liberdade”, diz Telhada.

O preconceito logo se revela patético. Na quarta-feira passada, o mecânico Francisco Alves atendeu um cliente recém-chegado de Minas que levou o carro para a oficina na região do Pirajuçara, em Taboão da Serra. Ele perguntou sobre a eleição. O homem respondeu: “Vixi, fala do Aécio lá em Minas que você apanha, lá ninguém vota nele”. Sem entrar em detalhes sobre a rejeição local ao senador, o mineiro não eleitor do conterrâneo levou Alves não só a desistir de Aécio.

“Foi bom você falar, estava pensando em votar nele, mas acho que não vou mais”, disse ao cliente, relatou Alves ao VERBO. “Estava meio assim, com pé atrás com Aécio, mas meu voto seria para mudar. Só que ele falou aquilo, aí abriu meus olhos, achei que seria pior. Pensei em anular, mas a gente tem que votar em alguém e votei na Dilma”, contou. Nas duas vezes eleito presidente, em 1994 e 1998, o tucano Fernando Henrique Cardoso venceu no Nordeste.

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