ALCEU LIMA
Especial para o VERBO ONLINE, em Embu das Artes
Um sacerdote de uma paróquia de Embu das Artes participou na quinta-feira (6) de uma carreata da candidatura do prefeito Ney Santos (Republicanos) à reeleição, ato proibido pela Igreja Católica. O padre Manfredo dos Santos “desfilou” por ruas do município ao lado do candidato a vice de Ney, o vereador Hugo Prado (MDB) – naquele dia, o prefeito não fez campanha. A diocese à qual Manfredo é subordinado incentiva a denunciar a conduta do clérigo.
Padre Manfredo, da Paróquia São Vicente de Paulo e São Tiago, na região do Jardim Vazame, “passeou” na periferia de Embu na carroceria de uma picape entre Hugo e o locutor da campanha de Ney, ou seja, ao centro, em posição de destaque para chamar a atenção ao pedir voto aos candidatos que apoia – além de desrespeitar diretriz eclesiástica, infringiu lei de trânsito e cometeu infração grave ao ser conduzido na parte externa do veículo.
Além de não usar máscara em parte da carreata, em desrespeito a outra lei, a do uso obrigatório da proteção contra a covid-19, Manfredo chegou a espalmar as duas mãos para indicar o número de Ney. Apesar de sacerdote, ele é considerado um dos principais cabos eleitorais de Ney e sempre se faz presente em atos políticos em apoio ao prefeito ou a aliados do político. Manfredo apoiou abertamente Ney já em 2016 na campanha a prefeito.
Em 2018, Manfredo subiu no palanque em ato dos candidatos Ely Santos (Republicanos), a deputada federal, irmã de Ney, e Hugo, a estadual. Até discursou. “Deus está abençoando e vai abençoar sempre mais a ação deste nosso irmão Hugo Prado, que tem o meu voto, nosso apoio para deputado estadual, e também a Ely, para que esta cidade e nosso Estado cresçam e melhorem sempre mais”, disse o padre partidário diante de mais de 500 pessoas.
Ainda em 2018, Manfredo também ocupou o espaço apinhado de políticos no evento do candidato a governador Márcio França (PSB), por ser apoiado por Hugo. Em outubro do ano passado, na eleição de conselheiro tutelar, ele apareceu em foto ao lado de correligionários de Ney com material da candidata Thais Prado, irmã de Hugo, na escola Paulo Freire, na região onde atua, em suspeita de ter feito boca-de-urna – ele apontava para o “santinho”.
Por conta de tanto “apoio” manifestado ao grupo político no poder na cidade, Manfredo recebeu da Câmara Municipal o título de “Cidadão Embuense”, entregue na paróquia por Hugo e outros vereadores aliados a Ney. Na verdade, ele foi “recompensado” pelo alinhamento político em 2016 e 2017, já que foi agracidado em fevereiro de 2018. Nos meses depois, ao marcar presenças nos palanques, retomou a “militância” e “retribuiu” a homenagem.
Em setembro, Manfredo foi alvo de reportagem do “Embu News” de que estaria coagindo funcionários de creches que administra, a Florestan Fernandes, no Valo Verde, e Solange da Silva Vieira, no Santa Emília, a votar no candidato a vereador que apoia – leia. O candidato é irmão de Manfredo e adotou nome sugestivo para o pleito, Olavo do Padre, na coligação Ney-Hugo. Segundo o site, algumas funcionárias se recusaram e foram demitidas.
O VERBO procurou a Diocese de Campo Limpo, à qual o padre responde. Diante de fotos de Manfredo em cima da picape e questionado se o sacerdote podia participar de campanha política, de carreata, o assessor de Comunicação, padre Rodrigo da Silva, disse, tachativo: “Não, não pode, está totalmente contrário às orientações da diocese”. “Não existem candidaturas oficiais da Igreja”, acrescentou – nem mesmo a do irmão de Manfredo.
“A Diocese de Campo Limpo indica critérios para o discernimento pessoal, pois o respeito à consciência é o ponto de partida para que o processo eleitoral transcorra de acordo com o evangelho e a autêntica democracia. O voto é uma escolha pessoal, fruto do discernimento de cada consciência, que, diante de Deus, vai responder pelas escolhas que vier a fazer”, disse padre Rodrigo, em reafirmação da posição da Igreja na eleição municipal anterior.
“Os padres e lideranças leigas devem se empenhar na formação das consciências, despertando as forças espirituais e promovendo, com clareza, os valores defendidos pela Igreja através da pregação e do testemunho. Devem se eximir de explicitamente manifestar suas opções eleitorais”, disse o assessor. “Sobre a postura do clérigo, indico enviar e-mail [à diocese] para dúvidas ou mesmo oficializar denúncias sobre a participação em campanhas”, falou.
“Quem está cuidando dessas questões relacionadas aos padres que descumprem as normas da diocese para o pleito eleitoral é a Câmara Eclesiástica da diocese. […] Qualquer posição sobre o padre só será tomada mediante uma denúncia formal”, finalizou o padre Rodrigo – ele informou e-mail para denunciar desvios de conduta de clérigos (veja ao final da reportagem). O padre Manfredo foi procurado por este portal, mas não respondeu.
Um padre chama a atenção ao se engajar em campanhas políticas, quanto mais quando os candidatos são denunciados por crimes graves. Ney é réu sob acusação de fraude em licitação, organização criminosa e corrupção por desvio de recursos para compra de kit escolar, na “Operação Prato Feito”, disparo de arma e posse ilegal de arma com numeração suprimida. Hugo é réu também na “Prato Feito” por receber propina – citado 22 vezes.
SERVIÇO
Denúncia contra padres com participação em campanhas políticas vetada pela Diocese de Campo Limpo
camara@diocesedecampolimpo.org.br





