Em declaração à Justiça, Aprígio (Podemos), prefeito de Taboão da Serra em 2024, não descartou que o seu próprio grupo político tenha armado o atentado falso durante a campanha à reeleição. Ele disse que “tudo é possível”. Segundo a Polícia Civil e o Ministério Público, um núcleo restrito de aliados do então chefe do Executivo planejou o forjado ataque para gerar comoção na população para votar em Aprígio às vésperas do segundo turno. Aprígio nega envolvimento.
Em inquérito inicial, a polícia concluiu que o ataque de fuzil ao carro do prefeito foi armado pelo grupo político de Aprígio para alavancar o nome dele – Aprígio tinha ficado muito atrás de Engenheiro Daniel (União Brasil) no primeiro turno. Mas a simulação foi malsucedida ou “atrapalhada”. Seis tiros de um AK-47 russo perfuraram a blindagem do veículo e um atingiu o prefeito no ombro esquerdo. Dois suspeitos foram apontados como intermediários e três, como executores.
O plano foi descoberto após um suspeito preso concordar em fazer uma delação (premiada) sobre as circunstâncias do ataque, Gilmar de Jesus Santos, que confessou ser um dos executores, que atiraram. Vídeo de trecho do depoimento dele à Justiça foi tornado público. Ele reafirmou o relato que fez antes à polícia e ao MP, de envolvimento na trama criminosa. “A minha participação foi, é… Efetuar os disparos. Com… é… Efetuar os disparos no pneu e no capô do carro”, disse.
“Era pra mim poder fazer uma… Um falso atentado, que o prefeito estava baixo na pesquisa. Que era para poder aumentar a pesquisa”, continuou Gilmar, sobre ampliar a intenção de voto em Aprígio. “Aí eu falei: ‘Ah, tá bom, vamos lá’. Só que eles ‘falou’ pra mim que tinha que ser de fuzil para poder parecer um fato real”, afirmou, na gravação mostrada. Segundo ele, um secretário que quis que o ataque fosse de fuzil, para provocar repercussão na mídia e impacto na população.
Gilmar disse não saber o nome do secretário, mas que era de Obras. O titular era Ricardo Rezende, mas a polícia indicou se tratar de Valdemar Aprígio, irmão do então prefeito, que meses antes tinha chefiado a pasta. Gilmar afirmou que executou o plano com Odair Júnior de Santana e Jefferson Ferreira de Souza, contratados por Anderson da Silva Moura e Clóvis Reis de Oliveira. O trio dividiria pagamento de R$ 500 mil. Além do delator, só Anderson foi preso.
Em depoimento também em vídeo, no primeiro inquérito, Aprígio disse achar que o ataque era “troca de tiro de bandido e polícia”. Indagado pelo promotor se não acreditava que o falso atentado partiu de seu próprio grupo político, Aprígio disse desconhecer, mas não descartou. “Eu não gostaria de acreditar que partiu do meu grupo político, mas a gente… tudo é possível. A gente não pode dizer que também, né… que não foi. Eu quero que a Justiça apure”, afirmou.
Aprígio, em choro, falou ter ficado com trauma. “Isso acabou com a minha vida. […] Eu fiquei muito, muito, muito medroso. Não saio mais de casa. Não posso parar o carro no farol. Estou vivendo à base de remédios. Tanto que eu me dediquei às pessoas, no final da vida precisava alguém fazer isso comigo?”, disse. O vídeo de Aprígio sangrando foi divulgado pela assessoria dele – a imagem foi lançada nas redes sociais editada apenas 30 minutos depois do ataque.
O segundo inquérito foi aberto após fevereiro de 2025, quando se encerrou o primeiro, para identificar os mandantes da farsa, mas a Polícia Civil concluiu a apuração no mês passado sem apontar os autores intelectuais. Assim, o MP poderia ter pedido o arquivamento. Mas optou por manter a investigação e solicitou a quebra dos sigilos bancário e telefônico dos sete investigados – inclusive de Aprígio e dos três secretários dele à época -, além de novos laudos periciais.





