Polícia fecha apuração sem apontar mandantes, mas MP mantém com quebra de sigilos no caso Aprígio

Delegacia de Taboão disse ter esgotado 'meios investigativos' e que 'não foi possível identificar' autores intelectuais da farsa; mas Promotoria não aceitou arquivamento

Especial para o VERBO ONLINE

Carro blindado em que Aprígio estava perfurado por fuzil, e então prefeito em evento; Polícia Civil de Taboão concluiu inquérito, mas MP quer identificar mandantes | Divulgação

A Polícia Civil de Taboão da Serra concluiu no mês passado o segundo inquérito sobre o falso atentado político que feriu em 2024 o então prefeito Aprígio (Podemos) sem identificar os mandantes do crime. No entanto, questionado pelo Ministério Público, parte da investigação, se acredita que o falso ataque partiu do seu grupo político, Aprígio disse que “tudo é possível”. Ao contrário da polícia, o MP não deu o caso por encerrado e decidiu por novas medidas.

O primeiro inquérito tinha sido encerrado em fevereiro de 2025, quando a polícia concluiu que o ataque de fuzil ao carro do prefeito tinha sido armado por um grupo restrito de apoiadores de Aprígio para sensibilizar a população para o reeleger. Mas a simulação fugiu do controle. Seis tiros de um AK-47 russo perfuraram a blindagem e um atingiu o prefeito no ombro esquerdo, ação que também colocou em risco a equipe de Aprígo – motorista, secretário e videomaker.

O episódio viralizou após um vídeo mostrar Aprígio ensanguentado ser divulgado pela assessoria do prefeito – a filmagem foi feita pelo videomaker que estava no carro e lançada nas redes sociais apenas 30 minutos depois do ataque. Dois suspeitos foram apontados como intermediários e três, como executores, pela polícia. Dois acabaram presos e três permanecem foragidos. Os cinco indivíduos foram denunciados por quatro tentativas de homicídio, entre outros crimes.

Apenas quatro dias depois de comandar grande operação contra três secretários municipais de Aprígio – entre eles o irmão do então prefeito, Valdemar Aprígio -, além de apontar os intermediários e executores do plano, o delegado seccional de Taboão, Helio Bressan, foi desligado do cargo, em suspeita de interferência política. Após a saída de Bressan, a investigação não avançou. O MP determinou a abertura de segundo inquérito para apurar quem mandou atirar.

A nova investigação acabou encerrada em 21 de janeiro deste ano. A delegacia afirmou ter esgotado todos os “meios investigativos” e que “não foi possível identificar” os autores intelectuais. Além de Aprígio, seis pessoas foram investigadas por suspeita de envolvimento no plano, entre elas o secretário José Vanderlei dos Santos e o sobrinho-neto de Aprígio, Christian Lima Silva, envolvido em semelhante ataque forjado em Alagoas em 2020 – todos negaram participação na farsa.

O plano foi descoberto, porém, após o suspeito preso Gilmar de Jesus Santos concordar em fazer uma delação (premiada). Ele relatou que o atentado foi encomendado por pessoas ligadas ao grupo de Aprígio para “parecer real”. Segundo ele, um secretário queria um ataque que gerasse comoção, daí que exigiu o uso de um fuzil. Ele queria manipular os moradores e impulsionar a campanha de Aprígio, que tinha ficado atrás de Engenheiro Daniel (União) no primeiro turno.

Gilmar disse não saber o nome do secretário, mas que era de Obras. O titular era Ricardo Rezende, mas a polícia – sob comando de Bressan – indicou se tratar de Valdemar Aprígio, que antes tinha chefiado a pasta. Gilmar afirmou que executou o plano com Odair Júnior de Santana e Jefferson Ferreira de Souza, contratados por Anderson da Silva Moura e Clóvis Reis de Oliveira. O trio dividiria pagamento de R$ 500 mil. Além do delator, só Anderson foi preso.

Em depoimento em vídeo à Justiça, ainda no primeiro inquérito, Aprígio chorou e relatou sequelas do ferimento. Indagado pelo promotor Juliano Atoji se não acreditava que o falso atentado partiu de seu próprio grupo político, Aprígio disse desconhecer, mas indicou não descartar. “Eu não gostaria de acreditar que partiu do meu grupo político, mas a gente… tudo é possível. A gente não pode dizer que também, né… que não foi. Eu quero que a Justiça apure”, declarou.

A defesa de Aprígio afirmou que a conclusão da polícia reforça a inocência do ex-prefeito, ao mencionar que o político não foi indiciado por nenhum crime e é “vítima”. Com o segundo inquérito encerrado, o MP poderia ter pedido o arquivamento. Contudo, optou por manter a investigação do caso e solicitou a quebra dos sigilos bancário e telefônico dos sete investigados – inclusive de Aprígio e dos então secretários à época -, além de novos laudos periciais.

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