Dinheiro da saúde repassado pelos governos Ney e Hugo foi desviado e bancou vida luxuosa de dono de OS

Presidente do Irdesi está preso acusado de liderar desvio de ao menos R$ 25 milhões para pagar viagens, aluguel de imóveis de luxo e até pedido de casamento em Paris

Especial para o VERBO ONLINE

UBS Central de Embu, um das unidades geridas pelo Irdesi; posto alagou semana passada; subcontratada da OS para manutenção do equipamento era de fachada | 'Fantástico'

Em vez de custear atendimento digno aos moradores nos prontos-socorros municipais – três -, abastecer os PSs e também as unidades básicas com medicamentos à população e prover a manutenção dos equipamentos, o dinheiro da saúde pública de Embu das Artes, repassado primeiro pelo governo Ney Santos e depois pela gestão Hugo Prado, ambos do Republicanos, foi desviado e serviu para bancar vida luxuosa de empresário da organização contratada.

É o que mostrou o “Fantástico” (TV Globo) no último domingo (21), ao detalhar o golpe, que veio à tona há um mês. A reportagem relata que a Polícia Federal prendeu no fim de novembro o empresário gaúcho Humberto Silva sob acusação de liderar um esquema que desviou pelo menos R$ 25 milhões de recursos da saúde pública para financiar uma vida de ostentação que incluía viagens internacionais, aluguel de imóveis de luxo e até pedido de casamento em Paris.

Humberto e outros empresários são gestores de hospital, em Jaguari (RS), PSs e UBSs, em Embu. Mas investigações da PF apontam para um esquema de desvio de dinheiro que começou a ser montado em 2021, quando Humberto comprou o Irdesi, o Instituto Riograndense de Desenvolvimento Social Integrado. O Irdesi é uma organização social privada (OS) que, por regra, não pode ter lucro – recebe recurso público para fazer a gestão e manutenção de unidades de saúde.

Entre 2022 e 2025, o Irdesi recebeu R$ 340 milhões, a maior parte paga pela Prefeitura de Embu, recurso federal, segundo a PF, dinheiro da saúde que foi usado para compra de carros, artigos de luxo, viagens e aluguel de apartamentos requintados. Um dos imóveis locados foi em Balneário Camboriú (SC). Nele, Humberto passou o Réveillon. Em uma ligação, o corretor elogia a opção. “Fizesse uma baita escolha. Um aluguel desse, de frente ‘pro’ mar, é no mínimo [R$] 20 a 25 mil”, diz.

Mais dinheiro bancou viagem e estadia de vários convidados do casamento de Humberto, no Nordeste. “Em algumas situações se identificou que o próprio cartão do hospital foi utilizado para pagar despesas pessoais”, diz o delegado da PF Anderson Lima. Em uma outra conversa, o empresário brinca com os gastos elevados da esposa na capital francesa. “Rapaz, esse casamento ‘tá’ saindo caro. É chocolate ‘pra’ cá, é óculos ‘pra’ lá, é bolsa de 30 ‘conto'”, ostenta.

Segundo a PF, o esquema também contava com contratados que não davam expediente. A própria esposa de Humberto, Maíne Baccin, que foi pedida em casamento em Paris, era uma das funcionárias fantasmas. Ela chegou a receber salário de R$ 23 mil por mês sem ter que trabalhar. A ex-mulher de Humberto Tássia Nunes também se beneficiava com o esquema. O Irdesi pagava para ela, além de salário, o aluguel de um apartamento em Balneário Camboriú.

Elas não deram entrevista. Em nota, a defesa de Tássia Nunes disse que “ninguém pode ser considerado como culpado antes do devido processo legal” e que “a antecipação de juízos condenatórios viola a presunção de inocência”. Também por nota, a defesa de Maíne Baccin declarou que “está realizando análise detalhada de todos os documentos e informações constantes do inquérito”. As duas foram retiradas da folha de pagamento da Irdesi por decisão da Justiça.

A organização criminosa desenvolveu um esquema sofisticado de desvio de recursos públicos. Somente com duas empresas de fachada, foram desviados pelo menos R$ 8 milhões. “[As] Empresas não existem, na verdade, estão em nome de ‘laranjas’. Essas empresas emitiam notas fiscais fictícias de serviços supostamente executados, que não prática não eram executados. E os recursos eram desviados para as mais diversas finalidades”, diz o delegado.

Em Porto Alegre, o “Fantástico” localizou o endereço de uma construtora que não existe. No local informado, em uma favela, Vila Cruzeiro do Sul, encontrou apenas pequenas casas em um beco. A empresa está registrada em nome de Valquíria Silva Nogueira. Abordada, ela confirmou ser a dona da empresa. “Tem uma construtora registrada em seu nome?”, perguntou a reportagem. “Sim”, disse ela. Indagada se é a dona, também respondeu “sim”.

Já ao ser questionada sobre que tipo de serviço presta, Valquíria se esquivou. “Não, eu não falo sem a presença de advogado”, disse. Sobre se estava envolvida em processo de serviços não realizados, ela se recusou de novo a responder e correu para casa. Uma vizinha tentou impedir a gravação e deu um tapa no celular do repórter. Na verdade, segundo a polícia, a mulher que se apresenta como dona da Valquíria Serviços era uma cozinheira contratada por Humberto.

Segundo a investigação, a construtora fantasma recebia R$ 260 mil por mês para fazer a manutenção de unidades administradas pelo Irdesi em Embu. Mas a UBS Central alagou durante uma chuva na semana anterior, mostrou o “Fantástico” em um vídeo. A reportagem foi à UBS e encontrou pacientes que não conseguiram remédios que deveriam ser distribuídos de graça. “No momento a gente ‘tá’ sem”, disse a atendente. O morador confirmou a falta do medicamento.

Procurada, a prefeitura disse que “as condutas apontadas na investigação […] se confirmadas, são de inteira responsabilidade da organização [social] contratada”. “Quanto à falta de medicamentos […], esclarece que a obrigação e responsabilidade é [sic] da organização gestora”, afirma. Até o momento, a Justiça bloqueou 14 imóveis, 53 veículos, uma lancha e contas bancárias de 20 investigados. O prejuízo é de pelo menos R$ 25 milhões, o valor retido.

Em uma outra conversa, Humberto reclama com os sócios que só ele estava exposto com a fraude. “Todo mundo fala né ‘o lucro do Irdesi’, mas eu acho que todo sócio tem que botar o ‘CPFzinho ali, né? Vamos começar a arriscar os seus patrimônios, arriscar tomar uma cadeia, né?”, diz. Ele arriscou e foi preso, observa a reportagem. “Ele não tinha nenhum temor que fosse alcançado pela Justiça, que era um dinheiro privado e que administrava como quisesse”, diz o delegado.

O “Fantástico” diz ter procurado a defesa do dono do Irdesi, mas não houve resposta. Em Embu, o atendente de bar Vitor Rocha protestou contra o desvio na saúde. “É um absurdo. Está faltando na base, no atendimento, no remédio, dos cuidados de saúde”, diz. Ney Santos e Hugo Prado tinham a responsabilidade de fiscalizar a gestão do Irdesi. No domingo à noite, enquanto eles dançavam no palco durante show de cantor famoso, ia ao ar o “escândalo” na saúde de Embu.

ASSISTA À REPORTAGEM DO ‘FANTÁSTICO’ SOBRE DESVIO NA SAÚDE DE EMBU DAS ARTES

Vídeo – “Fantástico” (TV Globo)

comentários

  • Enquanto isso, a população só se preocupando em se divertir em shows, que são o verdadeiro túmulo da música brasileira, esquecem que quando vão ao pronto socorro, posto de saúde e nas escolas, faltam profissionais e melhores condições de trabalho para dar um atendimento digno para a população…

  • Aí fica a pergunta até quando vai ser assim tem que por na cadeia e fazer devolver dinheiro um.monte de médicos sem receber a população sem medicamento

  • Não adianta reclamar desde que Ney assumiu embu tá um caos na saúde quem votou nele com voto comprado que se culpe

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