A vereadora Professora Najara Costa (PCdoB) realizou na quarta-feira (12) um encontro de líderes e seguidores da umbanda e candomblé em Taboão da Serra e convidados que reuniu 200 participantes, na Câmara Municipal. A 1ª Plenária de Povos Tradicionais e Comunidades de Matriz Africana foi marcada por denúncia contra o racismo religioso, crítica aos vereadores “intolerantes” com a fé de terreiro e ainda propostas pelo direito dos adeptos “de existir com dignidade”.
Com galeria e plenário tomados pelo “povo de axé”, várias lideranças discursaram. Religioso mais velho na mesa, o pai de santo Odesi, 69 anos, reprovou a ausência dos demais membros da Casa. “Coitados dos vereadores que perderam essa chance de conhecer os povos tradicionais de matriz africana. É um problema para eles, não vão entender nunca nossa ancestralidade. Não perderemos essa vivência nunca. Vamos viver sempre mesmo que não nos queiram”, disse.
A mãe de santo Débora D’Osun, presidente do Conselho Municipal de Igualdade Racial, disse que o povo de religiões afro “é invisibilizado, perseguido e julgado por manifestar a fé de forma diferente”. “Não pedimos privilégios. Pedimos direitos iguais, mesmo respeito, mesma liberdade, mesmo espaço que as outras religiões têm. Que o poder público compreenda que o candomblé e a umbanda também são parte do patrimônio espiritual e cultura de Taboão da Serra”, disse.
A advogada Ariele Campos, do candomblé, ficou feliz em ver “a Casa cheia”, espaço “que nos foi negado por muito tempo”, disse. “Mas eles [políticos] estão aqui, passando de pai para filho, para irmão. Espero que amanhã tenhamos cinco, dez cadeiras ocupadas pelo nosso povo. A minoria, na verdade, é a maioria. Os vereadores não estão aqui, temos que pensar nisso na hora do voto”, afirmou. Os adeptos das religiões afro em Taboão são 2,24% da população (Censo 2022).
A presidente da Upes (União Paulista dos Estudantes Secundaristas), Julia Monteiro, disse que os vereadores “utilizam Bíblias e falam no nome de Deus para justificar sua intolerância e racismo” e defendeu o cumprimento da lei 10.639/2003, de inclusão da disciplina de história e cultura afro nas escolas. “Isso não pode excluir as religiões de matriz africana, fazem parte do cotidiano e da cultura do nosso povo, que resiste mesmo sofrendo diversas políticas de apagamento”, disse.
A assessora Fernanda Botaro, da Secretaria de Direitos Humanos, disse que a pasta “está reformulando” a coordenadoria de religiões. “Está um pouquinho resistente, mas vamos brigar por isso”, disse. A secretária-adjunta Aleksandra Valentim (Relações Institucionais) disse para “trazer as pautas para ver o que o governo pode ajudar”. “De falas vazias, a gente está cansada. É uma Casa que é do povo, mas que muito pouco representa o povo, os interesses são próprios”, falou.
A mãe de santo Cris de Ogum lembrou que os vereadores rejeitaram projeto de lei (PL) de Najara de combate à intolerância contra as religiões de matriz africana e chamou os seguidores a ir à Câmara na terça-feira (18) para cobrar mais recursos para Cultura na discussão do orçamento. “Para que mais casas sejam contempladas pelas Lei Aldir Blanc e Paulo Gustavo [de auxílio financeiro], para beneficiar os povos de axé. Juntos, somos mais fortes. Sozinhos, não”, clamou.
A advogada Andréia Monteiro sugeriu atacar o racismo já na escola. “Na educação infantil já tem o preconceito”, disse. Ela mostrou que o Enem 2025 abordou a intolerância contra as crenças afro e reprovou a rejeição ao PL de Najara. “Taboão é um município provinciano. Precisamos avançar na temática”, falou. Após criticar que a Comissão OAB Vai à Escola não trata o assunto, propôs o “‘Conselho [Igualdade Racial] Vai à Escola’ para explicar para as crianças sobre racismo”.
Najara disse que “criou este fórum para entender as demandas de cada pai e mãe de santo, que vivem muitas vezes no isolamento”, e indicou que, para vencer resistências políticas, vai fazer a defesa da fé de terreiro pelo viéis da cultura, e não da religião, e propôs um órgão específico ao segmento. “É sobre o direito de existir com dignidade. Taboão precisa dar um passo institucional no que se chama Conselho Municipal dos Povos Tradicionais de Matriz Africana”, disse.
“Assumo publicamente o compromisso de protocolar um projeto de lei [do conselho], em diálogo com o Executivo, para que todas as lideranças que constroem essa caminhada possam ser ouvidas”, afirmou Najara, que acrescentou “destacar” a PEC que prevê a reparação histórica e econômica à população negra. No evento, ela ainda entregou o título de “Cidadão Taboanense” ao pai de santo Rodrigo Fujimoto, como ato também de valorização do “povo de axé”.
A mãe de santo Bárbara de Oyá, que luta pelo tombamento do Ilê Asé Jagun, a primeira casa de candomblé de Taboão, de 1965, disse que, “hoje, poder falar abertamente sobre nossa religião é uma conquista, que muitos de nossos ancestrais não puderam alcançar”. No entanto, ela apontou que a fé afro-brasileira segue como alvo de “tentativas de demonização ou discurso de ódio”. Mas os seguidores continuarão a resistir, disse. “O nosso território é de axé, é de partilha”, declarou.






Foram com certeza mais de 200 participantes…
Os Povos de Matriz Africana, precisam mesmo ocupar os espaços públicos, pois tem todo o direito. Se os vereadores antes de qualquer trabalho na Câmara Municipal leem a Bíblia, porque os outros não teriam o direito a entrar e frequentar quando bem quiserem a Casa (Câmara Municipal) do Povo? Direitos iguais para todos, sem discriminação!
“Não somos vítimas da história, somos protagonistas da mudança.”