Há 1 ano, UPA teve maior nº de mortes em um dia; fila zerou, ‘debochou’ Aprígio

Especial para o VERBO ONLINE

Jair, que só conseguiu UTI após muita luta da família, mas morreu após transferência tardia; na antevéspera das 6 mortes na UPA, Aprígio vistoria muro | Divulgação

ADILSON OLIVEIRA
Especial para o VERBO ONLINE, em Taboão da Serra

Há exato um ano, Taboão da Serra teve o maior número de mortes de pacientes por covid-19 em apenas um dia em toda a pandemia. No ápice do caos na cidade, a UPA Akira Tada, sem UTI, contou seis vidas perdidas em 11 de abril de 2021, um domingo. Com o prefeito Aprígio (Podemos) “alheio”, a UPA não tinha tido tantas perdas nem mesmo ao entrar em colapso, no primeiro fim de semana de março, quando em um dia teve no máximo quatro óbitos.

As seis vítimas foram quatro homens (50, 65, 70 e 75 anos) e duas mulheres (72 e 88 anos). Naquele fim de semana, a UPA teve sete mortes no total. Já tinha tido o óbito de uma paciente de 73 anos no dia 10, quando Aprígio completava 100 dias de governo. A gestão “celebrou” a data com 58 mortes na unidade em praticamente um mês (36 dias). Com as novas baixas, a UPA passava a ter 64 mortos, quase dois por dia. Em nove meses pandemia em 2020, teve “só” 44.

O governo Aprígio contabilizava que, desde 5 de março daquele ano, 46 pacientes tinham morrido na UPA à espera de UTI, por ter inserido as vítimas no sistema estadual de pedido de leito intensivo (Cross). Porém, reconhecia que não tinha incluído na fila por vaga mais 18 pessoas que vieram a óbito – chegaram “em estado grave e faleceram em horas”, relatou a gestão. Ou seja, os doentes poderiam ter sobrevivido se tivessem leito intensivo à disposição.

O morador Jair Antônio de Souza, de 65 anos, após cinco dias intubado na UPA, chegou a ser transferido a hospital com UTI, mas já muito grave e morreu em 7 de abril, quatro dias antes do dia do recorde de mortes na unidade. “O que dói é ter que ouvir o médico falar que ele chegou no Regional Sul já em estado gravíssimo, não tinha o que fazer, ele já foi muito mal”, protestou a filha Regiane Souza ao falar com o VERBO, que acompanhou o drama da família.

O governo municipal informou que cinco dos seis pacientes que morreram naquele fatídico domingo aguardavam UTI. Raimundo Moura, de 50 anos, foi o mais jovem entre as vítimas. Após ficar por quase 24 horas no precário PA da Covid, na então ex-UBS Clementino, ele foi levado à UPA no dia 1º de abril. Ele só foi incluído na fila por UTI três dias antes de morrer, no dia 8, apesar de ter piora progressiva e da promessa de “prioridade” feita pela gestão à família.

Despedaçadas, as famílias enlutadas ainda tiveram que suportar propaganda “infeliz” da gestão Aprígio. Apenas dois dias após as seis mortes na UPA, a Secretaria Municipal de Comunicação, chefiada pelo publicitário Arnoldo Landiva, divulgou informe (“release”) à imprensa de que “a fila de espera por leitos de UTI, regulada através do sistema Cross (Central de Regulação de Ofertas de Serviços de Saúde), de responsabilidade do governo do Estado, foi zerada”.

Ao lerem o texto oficial reproduzido por um site alinhado ao governo, moradores rechaçaram a informação da espera por UTI zerada. “Até porque quem ‘tava’ na fila morreu, por isso zerou”, criticou uma munícipe. Outra cidadã evidenciou o caos em Taboão. “Claro, já morreram todos. Só da família do meu esposo que esperava por leito de UTI morreram pai, mãe e filho. Fora alguns conhecidos que também morreram por falta de vaga na UTI”, reprovou.

O filho do morador Raimundo – que cuidou da internação do pai – recebeu o anúncio como “deboche”. “Fácil declarar que a fila de espera foi zerada sem contextualizar a real dificuldade que os internados e familiares passaram e que outros continuam passando. Muitas famílias que passam por essa situação acabam até perdendo suas esperanças quando o paciente apresenta um quadro que necessita de leito de UTI”, lamentou Guilherme Moura, 20, a este portal.

“Não é algo a se comemorar. Deveria ser lamentado que muitas vidas são perdidas, aguardando UTI. Do jeito que é posto parece até que dizem ‘podem chegar mais pessoas nesse estado que somos capazes de zerar a fila’”, criticou Guilherme. A morte de Raimundo devastou a mulher, dois filhos, parentes e amigos. “Tá doendo demais… perdemos você para a covid, para a falta de UTI, para o mau uso do dinheiro dos brasileiros”, disse uma sobrinha, indignada.

Só naquela semana, 14 pacientes tinha morrido na UPA. Mas Aprígio dizia “Taboão melhor a cada dia”. No dia 10 de março do ano passado, ele poderia ter cobrado do Estado UTI para Taboão, mas se negou a participar de reunião com o ex-prefeito Fernando Fernandes (PSDB) presente, por “picuinha” política. Um dia depois, ele foi mexer em vaso sanitário com descarga quebrada. Dois dias antes das seis mortes na UPA, no dia 9 de abril, vistoriou um muro.

GESTÃO APRÍGIO CITA TER ZERADO FILA POR UTI E ATRIBUI A ‘EFICÁCIA’ DOIS DIAS APÓS 6 MORTES NA UPA

Fonte: Secretaria de Comunicação do governo Aprígio

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