Visionário e com lucidez política, Annis Bassith, pioneiro e 1º prefeito de Embu, morre aos 94 anos

Especial para o VERBO ONLINE

Annis como prefeito de Embu, com governador Carvalho Pinto (anos 1960), e em casa ao falar sobre Embu no 60º aniversário, em 2019 | Márcio Amêndola/Divulgação

ALCEU LIMA
Especial para o VERBO ONLINE, em Embu das Artes

Uma das figuras mais importantes e queridas de Embu das Artes, Annis Neme Bassith, emancipador com grande influência na conquista da autonomia político-administrativa e primeiro prefeito da cidade, morreu nesta segunda-feira (4), aos 94 anos. A causa da morte não foi divultada. Annis era uma “unanimidade” em Embu, respeitado por lideranças de todos os partidos e ideologias políticas. Mesmo com mais de 90 anos, tinha grande lucidez cidadã.

Nascido em 16 de novembro de 1927, no largo 21 de Abril (centro de Embu), em casa onde hoje é uma agência do Banco do Brasil, Annis foi vereador de Itapecerica da Serra nos anos 1950, como representante do distrito de M’Boy, que se tornaria Embu, em 1959, pela luta de emancipadores, ele como protagonista. Com Embu “independente”, ele foi eleito prefeito – o primeiro – entre 1960 e 1964. A residência-berço foi a sede da prefeitura até por volta de 1970.

Ao recordar a atuação como prefeito, Annis dizia que o maior arrependimento que teve foi mandar cortar árvores centenárias que se enfileiravam no largo 21 de Abril. “Eu sou culpado de uma coisa importante, de cortar aquelas árvores. Burrice, burrice, falta de experiência, queria alinhar o jardim. […] Foi o maior erro da minha administração, um crime que não me conformo de ter cometido. Hoje não teria feito de jeito nenhum, a consciência é outra”, falou.

Por outro lado, Annis teve como maior satisfação e orgulho ao governar Embu a criação, por ato administrativo, da Feira de Artes de Embu, em 1969 – completou 53 anos -, oficializando o que já vinha de forma fragmentada sendo organizado por alguns artistas locais, entre os quais Mestre Gama, Josefina Azteca, Cirso Teixeira, Agenor, Claudionor Assis, entre outros. “A criação da Feira de Artes de Embu foi importante, deu projeção para Embu”, disse, visionário.

Ele contava, porém, que “o que gostaria de ter feito e não consegui foi ter dado mais escola para a mocidade nossa”, ter feito mais do que realizou pelo ensino na cidade, em demonstração de modéstia. “O [colégio] Maria Auxiliadora é da minha época, e o prédio do Mosc [Escola Madre Odete de Souza Carvalho, hoje estadual] foi eu que inaugurei”, disse. Após deixar a prefeitura, ele foi vereador de 1964 a 1968, ano em que foi presidente da Câmara Municipal.

Annis voltou a ser prefeito de 1969 a 1972 e inaugurou um museu histórico-artístico em 1970, mas o espaço se perdeu – grande parte do acervo se estragou ou foi furtado. Ele ainda sonhava que Embu teria de novo um museu e um arquivo histórico. Doou fotos e documentos da coleção pessoal ao historiador Márcio Amêndola, preocupado com a falta de memória da cidade, sem confiar que a prefeitura criasse o espaço de preservação da história local.

Ele sorria sobre ter sido de um partido conservador (Arena/PDS) sustentáculo da ditadura militar e depois ter apoiado em 2000 a candidatura de Geraldo Cruz (PT) a prefeito e de Roberto Terassi (PSB) a vice. “Eu não apoiei abertamente, mas [preferi ambos] porque eram os melhores. Eu não tinha mais vínculo nenhum com partido, nem a política me interessava mais, então eu optei pelos melhores, apesar de eu ser um adversário ferrenho do Geraldo”, disse.

Annis lembrava que “tive que administrar a minha desavença com a [então vereadora] Maria das Graças, do PT”, mas que, “com todas as desavenças, saí com boa amizade com eles”. Ele dizia gozar do respeito de todas as correntes por conduzir a vida política “pautada em coisas sérias, por Embu”. “Ele teve suas contradições nos tempos da ditadura, mas era muito mais democrático e republicano do que muitos sujeitos de esquerda que conheci”, diz Amêndola.

Annis deixou a vida pública em 1993, mas nunca ficou alheio aos destinos de Embu e era visto como “símbolo” da cidade – como os artistas Raquel Trindade (1936-2018), Solano Trindade (1908-1974), Mestre Assis (1931-2007). Empresário do ramo imobiliário, ele fundou também o jornal “Folha de Embu”. “Sempre tentou ajudar no diálogo entre esquerda e direita. Não se pode dizer que tenha enriquecido na política”, atesta ainda o amigo Amêndola.

Em 2019, Annis reprovou a falta de critério da Câmara em conceder o título de “Cidadão Embuense”, destinado a pessoas que chegaram e contribuíram com destaque para o desenvolvimento da cidade. “Eles não imaginam o que é ser cidadão embuense, eles dão o título a torto e a direito”, disse. O filho dos libaneses é grato pela vida pública. “Consegui alguns objetivos, o duro é quando fica numa luta e não consegue nada. Eu só tenho a agradecer”, falou.

Annins será velado nesta terça-feira (5), a partir das 7h, na Igreja Nossa Senhora de Caravaggio no Jardim Embuema (região central). O sepultamento será às 13h no Cemitério do Rosário (centro). O prefeito Ney Santos (Republicanos) decretou luto oficial de três dias. “Siga em paz, querido senhor Annis! Muito obrigado pelo exemplo e pelo carinho a nós dedicado”, reverenciou a professora Lídia Balsi, que recebeu diploma do primário das mãos do pioneiro de Embu.

comentários

>