Dissidentes expõem perseguição de Ney e pregam independência; Renato ‘foge’

Especial para o VERBO ONLINE

Ney têm exposta retaliação aos governistas dissidentes; Bobilel, Alexandre, Índio, Adalto e Gideon na sessão em que romperam com governo | G. Binho/Divulgação

ALCEU LIMA
Especial para o VERBO ONLINE, em Embu das Artes

Em sessão “histórica” ao pregarem independência perante o Executivo, vereadores da base dissidentes escancararam nesta quarta-feira (23) as ameaças e retaliações do prefeito Ney Santos (Republicanos) ao expor que tiveram os indicados aos cargos na prefeitura exonerados por terem votado contra o projeto da loteria municipal e decidido investigar o presidente Renato Oliveira (MDB), “pupilo” de Ney, por quebra de decoro, principalmente por racismo.

Índio Silva, Gideon Santos (ambos do Republicanos, partido de Ney) e Bobilel Castilho (PSC) discursam para enfrentar o prefeito. Após a votação dos projetos, realizada primeiro (inversão da pauta), Renato, pivô da discórdia no seio governista, “fugiu” do plenário para não ouvir a “resposta” dos agora adversários políticos. “Solicito ao vice-presidente que assuma os trabalhos que eu vou precisar me ausentar”, disse, com apenas pouco mais de uma hora de sessão.

Índio deu o tom do discurso logo no início. “Hoje eu não faço mais parte do governo. Pena que o nosso presidente saiu. Homem que é homem fala na cara. Mas o que me deixa satisfeito é que tudo que eu vou falar para vocês [público] já falei para ele na sala 40 [de reuniões da Câmara], como para o ‘pai’ dele”, ironizou em menção a Ney. “Eu não vou atacar o governo, mas o trabalho que fiz quando estava no governo vou fazer fora”, avisou, agora opositor.

Em segundo discurso, Índio condenou Renato por responder por injúria racial ao confirmar que teve os apoiadores dispensados por Ney. “O motivo que sofreram retaliação é que teve um menino que foi para o Rio de Janeiro brincar de ser presidente da Câmara de Embu. […] O prefeito veio me intimidar numa ligação. Falei para ele: ‘O filho [político] é seu, quem pariu que o balance’. Eu não vou limpar a merda de marmanjo que se diz presidente da Câmara”, reagiu.

Índio apontou ingratidão de Ney e revelou manobra do prefeito quando, em 2017, foragido com prisão decretada, pediu que não fosse à posse do então vice Dr. Peter. “Saí à 1h da manhã para Taboão da Serra [onde Ney estava escondido], e o prefeito, com a família chorando, me pediu pelo amor de Deus para não comparecer, e atendi. Hoje, o senhor não teve compaixão nenhuma, não olhou pela minha família nem pela família deles [demitidos]”, disse.

Índio disse que a experiência serviu de “crescimento”. “Vi que o senhor não tem coração. Não vou mover uma palha para denegrir, para derrubar o senhor. Quem vai fazer justiça com o senhor vai ser Deus. Não vou tripudiar, mas da mesma forma que vesti a camisa de vocês por cinco anos vou vestir a camisa contra vocês”, falou. Ele disse esperar “que isso não saia do campo político”, ao indicar temer violência da parte de Ney, conhecido por ser vingativo.

Gideon chamou atenção de que Ney deu ordem para o secretariado não atender mais os vereadores que romperam com o Executivo. “Se secretário não me atender, eu vou levar o povo para a prefeitura. Vou protocolar no MP [Ministério Público] com mandado de segurança”, reagiu. Alexandre Campos (PTB) manifestou apoio aos oradores. “Em momentos de instabilidade, temos que ter sabedoria, mas de ambas as partes”, disse, em crítica ao prefeito.

Bobilel disse que teve apoiadores exonerados, mas que Ney dispensou as pessoas que também o ajudaram “a chegar aonde chegou” e que as “puniu da pior forma”. Ele sugeriu que sofreu perseguição tola ao também acusar Ney de ingrato. “Eu não estou sendo punido porque falei mal do prefeito. Não falei. Eu pedi para suspender a sessão para entender o projeto da loteria e já me puniram. E tem cinco anos que estou defendendo este governo”, disse.

Bobilel disse se negar a assinar “cheque em branco”. “Fui punido porque o presidente não tem competência de ‘matar uma sessão no peito’ e chamar os vereadores para dar explicação, e barramos o projeto. Isso mostra fraqueza. Se tem um fraco aqui é o presidente, não é vereador nenum. A gente não tem o direito de perguntar se foi eleito para isso?”, disse, sobre Renato ter ficado no plenário e não se reunir com os aliados, em postura vista como arrogância.

O vereador disse que que foi punido ainda por Ney por integrar a Comissão de Ética, e investigar Renato. “Mandaram eu rasgar e engavetar. Como vou olhar os meus amigos de cor negra e falar que não investiguei? Me ameaçaram, mas não vou jogar uma carreira política no lixo para proteger quem errou. Não venha transferir a responsabilidade de um incompetente para mim, Índio e outros vereadores. Põe a mão na consciência!”, protestou, em recado a Ney.

Bobilel exibiu vídeos de bueiros entupidos e “rua caindo” para expôr também que Ney ligou para os secretários para ordenar que não o atenda mais. “Não vão atender uma senhora a ponto de morrer, levada por uma enxurrada!”, expôs. Ele conclamou os colegas a serem “independentes” perante o Executivo e unidos, ao citar os ameaçados por Ney. “Temos que ser harmônicos. Hoje é o Bobilel, Índio, Alexandre, Ricardo [Almeida]. Amanhã é outro”, disse.

Índio, o mais indignado, chegou a mostrar um anel para pedir que os oito dissidentes fiquem coesos contra as represálias de Ney. “Hoje, o que fizemos é uma aliança, temos que ter respeito um pelo outro”, disse. Ele se dirigiu ao vice-prefeito Hugo Prado (MDB), presente à sessão. “Tratem o povo com mais respeito”, avisou. “Se não atender as demandas do povo, vamos fazer bagunça e bater na prefeitura. Vocês verão o que é oposição de verdade”, disparou.

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