ALCEU LIMA
Especial para o VERBO ONLINE, em Embu das Artes
O ex-vereador Doda Pinheiro (Republicanos) emplacou na prefeitura de Embu das Artes um cabo eleitoral em posto de direção de uma área essencial do serviço público para embolsar polpuda “rachadinha”, o que refletiu em prejuízo ao atendimento e sofrimento à população que procurou o equipamento, durante o primeiro governo do prefeito Ney Santos, do mesmo partido do aliado. É o que revela um ex-assessor, na segunda reportagem da série.
No último dia 15, o VERBO revelou que Doda enriqueceu durante os governos Chico Brito (2013-2016) e Ney (2016-2020). Ao receber parte do salário de cada vez mais apoiadores e exigir cifras maiores, ele pegou montante que soma, por baixo, R$ 3 milhões. À Justiça Eleitoral, ele declarou patrimônio quatro vezes maior em apenas quatro anos, de R$ 262 mil (2016) para R$ 996.784,19 (2020), mas, segundo o ex-aliado, ainda aquém do que garfou.
Após quatro anos, na definição da testemunha, de “pilantragem” na gestão Chico, Doda, reeleito na oposição, logo buscou se aliar ao novo prefeito para retomar a prática ilícita – apesar de início com percalço (tema de futura reportagem). Sob Ney, porém, mais “experiente”, ganancioso e com “total liberdade” para agir, ele arquitetou esquema “estratégico” e indicou apoiadores a cargos de salário alto para ficar com “rachadinha” muito maior.
Entre os primeiros cargos de R$ 6 mil (líquidos) que recebeu para indicar, Doda pôs um aliado como diretor da UBS (unidade básica de saúde) Nossa Senhora de Fátima, região em que tem curral eleitoral. O ex-assessor relatou a “rachadinha” de Doda ao VERBO em outubro de 2019, portanto, fala sobre as “investidas” do político na época. “Inclusive tem um que está como gerente do Fátima. Chamamos ele de Lecão, Lecão Osmundo”, afirmou.
“Ele ganha, acho, R$ 8 mil. Salário dele é R$ 6.400 livre. Ele fica com R$ 2.100”, contou o ex-assessor. Ele lembrou que Doda, após não falar ao apoiador quanto teria que “rachar” e “depois de combinar fazer uma taxinha de 20%”, foi ficando “malandro”. “Ele foi se ‘profissionalizando’. Foi aumentando. Tinha casos de 30, 40% [de repasse]. Agora… Esse caso do rapaz é mais de 50%! Ele pega R$ 2.100. Dos R$ 6.400, Doda fica com R$ 4.300”, revelou.
Com quase 70% do salário “tomado” por Doda, o cabo eleitoral já estava insatisfeito. “[Falou] Que está desanimado, que quer sair, se eu apoiasse alguém [outro candidato a vereador], se dava para fazer uma conversa”, contou. “A pessoa vai [aceita o cargo] pela necessidade. [Mas] viu a responsabilidade que é cuidar de um posto de saúde”, disse. Antes, Lecão tinha função mais “tranquila”, atendia na farmácia da UBS Santa Tereza – salário: R$ 1.600.
Doda tem lábia, falou o ex-aliado, com propriedade pela convivência. “E o Doda é psicólogo. Ele vem com o papo ‘vai, cara, é a sua oportunidade, agora vamos começar assim, mas na frente…’. Vai ser pior. Mas ele não vai falar”, disse. “Ele [apoiador] está ganhando R$ 1.600, tem uma proposta para R$ 2.100, não vislumbra o trabalho que vai ter, [e] está tendo uma contemplação: ‘Bora’ [aceita]. E o homem [Doda] convence, você sabe…”, salientou.
“Nesse meio [política] dificilmente tem pessoas que ‘estudou’, tem ensino superior. Isso contribui muito, ajuda a abrir um pouco [a mente], ser um pouco mais crítico em algumas coisas. Quando vai ser crítico, já está no processo”, falou. “E quando está lá dentro é tudo no cu dele, ninguém chama o Doda para se responsabilizar. Nesses dias mesmo o [então vereador] Edvânio [Mendes] tirou foto da fila imensa que estava lá”, lembrou.
Ele avaliou que a “rachadinha” resulta na piora do atendimento. “Tem pessoas que têm o salário integral já desanimam com o tempo, acham que merecem ganhar mais, imagina ter que ficar com 30 e poucos por cento do valor”, disse, sobre uma responsabilidade grande. “Monstra, cara. Saúde, no Brasil inteiro, está uma porcaria. Você é louco… Ele está caindo em si agora”, falou. Indagado como soube do caso, ele disse: “Ele [Lecão] que me falou!”
Ele disse não ter dúvida de quem sofre com o esquema. “É a população. Que já está sofrendo, e ainda tem esses casos. Agora imagina ele ganhando a totalidade [do salário], como vai trabalhar, mesmo sabendo que o negócio ‘é matar um leão por dia’… Mas ele sabe que está ganhando para isso”, comentou. Não por acaso, a UBS Fátima foi um dos postos com mais problemas em Embu, como falta de remédios e médicos e filas para marcar consultas.
A testemunha disse que não ia aceitar os apertos se fosse a pessoa que Doda pôs na UBS para “rachar” o salário. “Eu não ia atender, ia chamar o vereador: ‘Vem para cá, a maior parte do meu salário está com você, vem atender'”, disse. Ele disse que não foi o único caso e que Doda inverteu a lógica dos ganhos. “No começo [‘rachadinha’], ele ficava com 20% e a pessoa, 80% [do salário]. Agora, ele fica com 80%, em alguns casos, e pessoa, com 20%”, frisou.
OUTRO LADO
Procurado, Lecão negou que tivesse o vencimento “rachado” pelo então vereador. “Isso nunca aconteceu, sempre fiquei com todo meu salário. Quem te falou mentiu”, declarou. Doda já tem conhecimento do relato do ex-assessor de que “rachava” o salário de funcionários e apoiadores. Após reportagem de que tinha enriquecido com a “rachadinha”, ele entrou na Justiça contra o VERBO, mas perdeu em segunda instância e desistiu do processo.
> Colaborou a Redação do VERBO ONLINE





