ADILSON OLIVEIRA
Especial para o VERBO ONLINE, em Taboão da Serra
O governo Aprígio (Podemos) concluiu que 233 doses contra a covid-19 sumiram da UBS Santo Onofre após o coordenador da Vigilância Epidemiológica (VE) Municipal mencionar o número. Porém, três dias depois do depoimento do técnico da Secretaria de Saúde, o diretor designado ao posto no Pirajuçara para apurar o fato não chegou a uma definição de quantas vacinas tinham desaparecido, em sinal de que o desvio pode até ser maior.
O VERBO revelou, com exclusividade, o desvio das vacinas e o relatório da sindicância aberta para apurar o caso. No próprio dia da denúncia do sumiço das doses, 8 de abril, Aprígio já exonerou a diretora, Fernanda Nascimento Cruz, antes de qualquer apuração, estranhamente. Entre 15 e 23 de abril, a comissão sindicante ouviu seis funcionários e outras duas pessoas, o coordenador da VE, Milton Parron, e o diretor-substituto Vilson Louzada.
A divergência surge justamente entre os depoimentos do técnico e do “interventor” da secretaria. Parron, que disse que soube do desvio pelo próprio secretário José Alberto Tarifa (Saúde), cravou o número de vacinas sumidas. “Realmente constatamos que naquela unidade, e até hoje nós temos 233 doses que eles [direção da UBS] não dão conta do que realmente aconteceu. As doses foram para a UBS e não existiam mais, sem justificativa”, afirmou.
Parron reconheceu falha no método de anotar em formulário para só depois registrar as doses e admitiu que a checagem não foi global. “Eles começaram a buscar essas filipetas e nós inclusive tivemos o cuidado de verificar se isso era verdadeiro até o que eles estavam colocando, e fazia por amostragem, conversava com essas pessoas e verificava a veracidade. Algumas irregularidades foram identificadas nas ligações por amostragem”, falou.
Parron indicou que a pasta cogitava o desvio de até mil doses, mas insistiu em pouco mais de duzentas. “Opinião pessoal, não se trata de questão de xepa [aplicação de sobra], porque essas pessoas estão inseridas no sistema, o que se trata é que 233 doses sumiram e que ainda estão nebulosas. O novo diretor sr. Vilson informou que já chegamos ao limite, sobre as 1.000 chegamos a 233 doses que não há mais documentos que justifiquem”, depôs.
A sindicância resolveu considerar a cifra apontada pelo chefe da VE, mesmo após hesitar em dizer que “o número final de doses acerca das quais não se identifica o destino” é “superior a duas centenas” e admitir que “houve também um número indefinido de vacinas aplicadas em pessoas de fora do grupo prioritário”. “O fato da não localização de 233 doses revela a ocorrência de desorganização administrativa na UBS Santo Onofre”, concluiu.
No entanto, diretor-substituto foi ouvido três dias depois de Parron e não teve a “certeza” do chefe da VE sobre o número de vacinas desviadas – em que se baseou a sindicância -, pelo contrário. Enviado à UBS “justamente para fazer a vistoria”, como frisou, Vilson disse que “a gente não consegue dizer se sumiu ou não, até porque ainda tem alguns lançamentos que ainda não foram feitos, e a gente está conseguindo pegar agora na segunda dose”.
Vilson declarou que “tem pessoas que nem na filipeta ou planilha estavam”, ao indicar grande desorganização e admitir a impossibilidade de identificar o número preciso de doses desviadas. “Teve lançamentos que nós fizemos que o paciente veio [se vacinou] e que não estavam lançados, só que o número não abaixa, então eu não entendo essa contagem, hoje até a hora que eu saí [da UBS] estava em 229 [doses sumidas]”, disse, ouvido em 23 de abril.
Curiosamente, Parron, que depôs três dias antes do substituto da diretora exonerada, disse – vale enfatizar – que “o novo diretor sr. Vilson informou que já chegamos ao limite, sobre as 1.000 chegamos a 233 doses que não há mais documentos que justifiquem”, em flagrante discrepância de versões. A comissão sindicante, formada por três servidores, concluiu a apuração de forma célere, em 10 de maio. No dia seguinte, Aprígio homologou o relatório.
OUTRO LADO
O VERBO questionou o coordenador da VE: “Quantas doses de vacina sumiram ou foram desviadas da UBS Santo Onofre?”. Ele ficou em silêncio. “Pode responder, Dr. Parron? Contribuintes de Taboão precisam da resposta”, disse este portal. Depois de duas horas, Parron respondeu: “233 doses”. Indagado como chegou ao número, ele disse que foi por meio de “inquérito vacinal”. “Levantamento de doses distribuídas e aplicadas. Essa é a diferença”, disse.
A reportagem questionou: “Por que mantém a afirmação de que sumiram 233 doses se o diretor Vilson disse que não sabia quantas faltavam três dias após o depoimento do sr?”. Parron tentou se esquivar. “Sem resposta, a VE, além do governo, fica sob suspeição”, falou este veículo. “Eu já respondi. O que foi constatado foram as 233 doses de diferença”, afirmou. Dois meses depois, Aprígio ainda omite a apuração sobre o caso, em operação “abafa”.
CHEFE DA VE DA GESTÃO APRÍGIO VÊ DESVIO DE 233 VACINAS; ENVIADO PARA APURAR NÃO CONFIRMA



APESAR DE DIRETOR NÃO PRECISAR Nº DE VACINAS DESVIADAS, SINDICÂNCIA SEGUE VE E CRAVA 233 DOSES


APRÍGIO HOMOLOGA RELATÓRIO; 2 MESES DEPOIS, NÃO INFORMA POPULAÇÃO, EM OPERAÇÃO ‘ABAFA’

VEJA RELATÓRIO FINAL DA SINDICÂNCIA SOBRE SUMIÇO DE VACINAS EM UBS, OCULTADO POR APRÍGIO