RÔMULO FERREIRA
Reportagem do VERBO ONLINE, em Taboão da Serra
ADILSON OLIVEIRA
Especial para o VERBO ONLINE, em Taboão da Serra
Em quadro trágico que indica erro do governo Aprígio (Podemos) na ação de combate ao recrudescimento do coronavírus, Taboão da Serra registrou 124 mortes por covid-19 em abril, praticamente 50% a mais (49,4%) que em março (83 óbitos), que tinha sido o mês mais letal desde o início da pandemia já sob a nova gestão. A Secretaria de Saúde e o próprio Aprígio alegam que abril foi mais mortal no Estado de São Paulo. A “desculpa” não se sustenta.
Taboão chegou ao maior registro de mortes por covid-19 em um mês ao notificar nesta sexta-feira, último dia de abril, mais quatro óbitos em 24 horas e somar 610 no total – na quinta-feira (29), tinha notificado outras cinco vidas perdidas para a doença e atingido 606 baixas. As 124 mortes, sob o governo Aprígio, são 61% a mais que o mês mais letal na gestão anterior, de Fernando Fernandes (PSDB), no longínquo junho de 2020, com 77 óbitos.
Durante a pandemia inteira no ano passado, a partir de março (nove meses), sob o governo Fernando, Taboão registrou 356 mortes por covid-19, média de 1,31 por dia. Somente neste ano, de 1º de janeiro até esta sexta-feira (quatro meses), notificou 254 óbitos, mais de dois (2,1) diários, em evidência da explosão do coronavírus na cidade, sem qualquer controle, na gestão Aprígio, que não se atentou ao agravamento da doença ou optou pela inércia.
O “pesadelo” da pandemia em Taboão se deve principalmente ao colapso na UPA, com superlotação e mortes praticamente diárias na unidade. De 5 de março até esta sexta (57 dias), 78 pessoas morreram na UPA sem atendimento de UTI (média de 1,40), quase três mortes a cada dois dias. O governo Aprígio diz que são 53 óbitos, por ter incluído as vítimas na fila por vaga. Mas os demais pacientes poderiam ter resistido com UTI à disposição.
Taboão é o primeira cidade no Estado de São Paulo a registrar morte de pacientes à espera de UTI, naquele 5 de março, quando quatro internados que estavam com pedido de transferência à central estadual de vagas (Cross) morreram. Mas o dia mais doloroso ainda viria. No último dia 12, seis pacientes agonizaram até a morte, com os familiares implorando por um leito de UTI, em vão. Dois dias depois, a gestão Aprígio disse que “zerou a fila”.
Nesta sexta, após a secretária-adjunta Thamires May (Saúde) enviar ao VERBO o boletim do dia, com o dado de 610 mortes no total, este portal apontou o trágico registro de 124 mortes em abril em Taboão. Ela mandou um mapa do Brasil com curva de óbitos ascendente e argumentou que “a cifra foi alcançada no mês mais mortífero”. A reportagem disse que o país tinha tido o período de 30 dias “mais mortífero com a contribuição de Taboão”.
Thamires se irritou e passou a acusar que este portal “ironiza a tragédia”. A reportagem apontou a manipulação ou análise equivocada da subsecretária. Bastou apresentar os resultados dos vizinhos. Citou que Itapecerica da Serra registrou 30 mortes em abril – “sob a gestão Aprígio, quatro vezes mais”, falou. Mencionou que até Embu das Artes – que não é exemplo pela falta de transparência – notificou menos mortes que Taboão em abril – 53. Ela calou.
Na quinta-feira (29), ao entregar uma base de segurança no Marabá, questionado por este portal se o governo não errou na ação contra a covid-19, Aprígio disse não ver falha, apesar das mais de 70 mortes na UPA sem UTI apenas desde março. “O que eu teria que fazer de melhor planejamento, do que não é obrigação do governo municipal, sem recursos? Ainda construímos 30 leitos”, disse. Ele criou leitos de enfermaria e só após o colapso da UPA.
Leito de UTI é ofertado pelo Estado, mas as cidades podem criar ou exigir vagas. No dia 10 de março, Aprígio teve a oportunidade de cobrar do governo João Doria (PSDB) UTI para Taboão, mas se recusou a participar de reunião ao ver Fernando na sala. Desde então, ele se limita a esperar vaga. Indagado sobre o episódio, quando poderia ter cobrado um hospital de campanha custeado pelo Estado, Aprígio xingou o repórter do VERBO de “filho da puta”.
BOLETIM
As nove últimas vítimas registradas entre moradores de Taboão (sexo, idade, comorbidades, local de óbito) são:
– 602ª – homem, 37 anos, obesidade – Santa Casa de São Paulo (óbito em 22/4);
– 603ª – homem, 72 anos, sem comorbidades – Hospital Municipal de Brasilândia (óbito em 17/4);
– 604ª – mulher, 44 anos, sem comorbidades – UPA Akira Tada (óbito em 13/4);
– 605ª – homem, 71 anos, sem comorbidades – UPA Akira Tada (óbito em 22/4);
– 606ª – homem, 42 anos, sem comorbidades – Hospital Guilherme Álvaro (Santos, SP) (óbito em 15/4);
– 607ª – mulher, 50 anos, hipertensão – Hospital Municipal Josanias Castanha Braga (óbito em 15/4);
– 608ª – mulher, 65 anos, imunodepressão e câncer linfático – Hospital das Clínicas (óbito em 16/4);
– 609ª – mulher, 81 anos, diabetes e doença cardiovascular crônica – Hospital Next (óbto em 22/3);
– 610ª – mulher, 67 anos, doença cardiovascular crônica – Hospital leito Irmã Annete (Embu) (óbito em 6/4).
De 609 vítimas (a 340ª não teve perfil relatado), Taboão conta a morte por covid de 341 homens e 268 mulheres – 60 a 69 anos (184), 70 a 79 (157), 50 a 59 (91), 80 ou mais (86), 40 a 49 (53), 30 a 39 (23), 20 a 29 (sete), 0 a 9 (seis) e 10 a 19 (duas). Com 13.799 casos confirmados, o município tem índice de letalidade de 4,4% – acima do Estado (3,3%) – e taxa de mortalidade de 207,72 óbitos por 100 mil habitantes, a mais alta da região (oito cidades).
Taboão registra 27,14 casos por dia dos últimos sete dias, 5% a menos do que a média de 14 dias atrás, de 28,71. E 3,71 mortes por dia (26 no total), 30% a menos em relação à média há duas semanas, de 5,28 (37). Os casos estão em estabilidade. Apesar das novas baixas, os óbitos estão em desaceleração, mas ainda em patamar alto, com quase quatro por dia. Nesta sexta, mais uma pessoa, uma mulher de 41 anos, morreu na UPA – a 78ª vítima.