RÔMULO FERREIRA
Reportagem do VERBO ONLINE, em Taboão da Serra
Mais dois pacientes com provável diagnóstico de covid-19 morreram na UPA de Taboão da Serra sem assistência de UTI nesta segunda-feira (19). Com os novos casos fatais, o município soma 557 vítimas no total. Boletim divulgado ontem pela prefeitura aponta 555 óbitos, mas não inclui as duas baixas – o informe só foi divulgado à imprensa às 18h52, com demora, já que praticamente quatro horas antes já estava pronto, por volta das 15h.
Segundo a prefeitura, as duas vítimas são dois homens, um de 79 anos inserido na central estadual de regulação de vagas de UTI (Cross) desde segunda-feira (18) e outro de 66 inserido no órgão desde o dia 15. Ontem, a UPA estava com 35 pacientes internados, 27 em leitos de enfermaria e oito na emergência, dois intubados. Porém, dois assistidos receberam alta e cinco foram transferidos para hospitais com UTI via sistema de busca de leitos.
Em tragédia sem precedentes em 62 anos de vida, Taboão registra 69 pacientes que morreram na UPA à espera de UTI em cerca de 45 dias – precisamente, 46 dias, três mortes a cada dois dias. O governo Aprígio (Podemos) diz que “apenas” 48 faleceram na unidade por falta de UTI, por ter inserido as vítimas em pedido de vaga. Mas outros 21 morreram sem terem sido incluídos na fila. Ou seja, poderiam ter sobrevivido se tivessem UTI à disposição.
Um dos pacientes que não resistiram foi Jair Antônio de Souza, de 65 anos, que ficou cinco dias intubado na UPA e quando foi transferido já estava muito mal. “Essa demora para conseguir UTI está matando pessoas”, criticou a sobrinha Daniela Lino. “O que dói é ouvir o médico falar que ele chegou no Regional Sul já em estado gravíssimo, que não tinha o que fazer, porque ele já foi com o quadro muito comprometido”, disse a filha Regiane Souza.
Não bastasse a piora de Jair na UPA, Regiane foi informada pelo médico que os remédios que mantinham o idoso sedado só durariam mais dois dias. Com a denúncia repercutida na imprensa, inclusive publicada por este portal, o governo afastou o profissional da unidade. Transferido da UPA no dia 1º de abril, só após muita luta da família, Jair morreu no último dia 7. O óbito do morador entrou apenas no boletim municipal desta segunda-feira (19).
A semana seguinte à da transferência de Jair foi ainda mais dramática, com o ápice do colapso. De 4 a 11 de abril, 14 pacientes morreram na UPA, seis apenas no domingo (11), o maior número óbitos em um dia na UPA desde o início da pandemia. Na terça (13), sem doentes à espera de leito de UTI, o governo Aprígio demonstrou indiferença com o sofrimento das famílias enlutadas e, após as mortes em série apenas dois dias antes, disse que “zerou a fila”.
Moradores ficaram indignados com a postura do governo. “Claro, já morreram todos. Só da família do meu esposo que esperava por leito de UTI, morreram pai, mãe e filho. Fora alguns conhecidos que também morreram por falta de vaga na UTI”, disse uma moradora. O comentário de uma página ligada ao governo mereceu reprovação. “De excelente essa notícia não tem nada!!! Zerou porque morreram. Nos poupe!”, reagiu Daniela, sobrinha de Jair.
Leito de UTI é ofertado pelo governo do Estado, mas as cidades podem criar ou exigir vagas. No dia 10 de março, Aprígio teve a oportunidade de cobrar do Estado leitos de UTI para Taboão, mas se negou a participar de reunião por “picuinha política”, ao ver na sala o ex-prefeito Fernando Fernandes (PSDB). Desde então, ele se limita a esperar vaga – “assiste” às mortes. Com 100 dias de governo, Aprígio diz “Taboão melhor a cada dia”, apesar dos 69 óbitos.





