RÔMULO FERREIRA
Reportagem do VERBO ONLINE, em Embu das Artes
O prefeito e candidato à reeleição Ney Santos (Republicanos) pode voltar a cobrar a taxa de lixo no ano que vem, caso seja reeleito. A afirmação é de um correligionário de Ney, Ivo Amorim, que tem cargo político no governo. Ivo fez a declaração em julho de 2018, mas revelou em primeira mão que o prefeito ia cancelar o tributo, apesar de dizer que seria em 2020. Ney suspendeu a taxa ainda no fim de 2018, mas antecipou só após fracasso eleitoral.
Ney anunciou o cancelamento da cobrança em 2019 no dia 29 de outubro de 2018, menos de um mês após ruidosa derrota nas urnas dos candidatos que lançou, a irmã Ely Santos (PRB, atual Republicanos), a deputada federal, e Hugo Prado (então PSB, hoje MDB), a estadual. Ele alegou revogar por estar saldando a dívida com a empresa coletora. Mas tomou a decisão devido à forte rejeição ao “Neytaxa”, com risco de comprometer a reeleição.
Em entrevista à época, em que omitiu artimanhas para taxar a população, Ney voltou a alegar que a taxa, que criou no ano anterior, era “necessária”, mas disse que já tinha condições de revogar. “Implantamos naquele momento por conta da dificuldade financeira”, disse ao evocar dívida deixada pelo governo Chico Brito (ex-PT, PSD). Porém, Ney era vereador nos últimos quatro anos de gestão de Chico e não acusou a dívida. Hoje, reeditaram a aliança.
“Recebemos uma dívida de R$ 257 milhões. Desses, quase R$ 50 milhões era dívida com a Enob, a empresa que coleta lixo na nossa cidade. Até por estar assumindo a cidade naquela ocasião, não tínhamos o conhecimento da situação em 100% como temos hoje. Estando na prefeitura há um ano e pouquinho, já deu para ter conhecimento de muitas coisas. A dívida com a Enob era bem maior que hoje, até porque pagamos alguma coisa”, disse.
Ney disse ter negociado com a empresa, mas alegou não poder precisar a quantia paga ao credor a cada mês. “Fizemos parcelamento com a Enob. Hoje a gente paga a medição atual e um pedaço da dívida […] Não fixamos uma parcela, até porque a situação financeira continua difícil. […] Para a Enob, que tem uma concessão [para coleta] aqui de 30 anos, foi pago mais de R$ 7 milhões, o que conseguimos arrecadar com a taxa do lixo”, afirmou.
Ele disse que a taxa do lixo, que tinha começado a ser cobrada em janeiro, não rendera nem R$ 1 milhão por mês. “Em média, R$ 700 mil. Até agora arrecadou R$ 7 milhões, em dez meses. Creio que deve chegar a R$ 9 milhões e alguma coisinha no final do ano, nos 12 meses. É um valor razoável para a prefeitura, que está com dificuldade financeira”, falou. Suspeito de esconder a verdade sobre o montante da dívida, não exibiu nenhum documento.
Ney alegou ainda que a cobrança não seria permanente e já estudava “no ano passado [2017] acabar” com a taxa. “Fizemos um compromisso com a população lá atrás, que íamos implantar a taxa do lixo para ‘apagar o incêndio’ naquele momento e na medida do possível voltávamos a conversar. E hoje a nossa conversa com a população é esta, extinguir a taxa do lixo em 2019. A população de Embu das Artes não vai receber a cobrança”, disse Ney.
Na verdade, Ney aceitou rever a taxa em acordo para retorno à base governista do vereador Luiz do Depósito (MDB). Além de passar a integrar a “tropa de choque” de Ney contra a oposição na Câmara, Luiz desistiu de concorrer a deputado federal para apoiar Ely. Ainda à época, Ney negou ter cancelado a taxa em vista da reeleição, mas a revogou ao pagar nem 20% da dívida com a empresa e não disse de onde tiraria dinheiro para quitar o resto.
Ney alegou que só “começamos a receber em 2018”, mas “escondeu” a manobra de tentar fazer a população pagar ainda em 2017, por decreto. Foi derrotado – a oposição buscou a Justiça, que barrou. Na entrevista, ele se esforçou em dizer que “implantou”, e não “criou” a taxa. Mas ele próprio se traiu e deixou escapar várias vezes que “criou”. No início da entrevista, nem se corrigiu. “Até porque quando criamos, criamos porque não tinha outra solução.”
Nesse contexto, Ivo – aliado entusiasta de Ney, que faz defesa incondicional do governo e ataca opositores nas redes sociais – falou sobre a tática do prefeito. “Na verdade, o projeto que ele vai criar em 2020 não é para extinguir a taxa do lixo, é para cancelar. Cancelar significa que em 2021 ele pode voltar com a taxa do lixo, caso seja eleito – reeleito, né? Então é a grande jogada para tentar a reeleição”, falou Ivo, em áudio. Procurado, Ney silenciou.
OUÇA ÁUDIO EM QUE O ALIADO IVO AMORIM DIZ QUE NEY PODE RECRIAR TAXA DO LIXO SE ELEITO





