Na ‘rachadinha’, Doda quadruplicou patrimônio em 4 anos e se tornou milionário

Especial para o VERBO ONLINE

Vereador e candidato Doda (Republicanos) e patrimônio em 2012, 2016 e neste ano, 4,5 vezes mais que em 2012 e 3,8 vezes mais que há 4 anos | G. Binho/Verbo

ALCEU LIMA
Especial para o VERBO ONLINE, em Embu das Artes

Praticante da “rachadinha”, o vereador e candidato a vereador de Embu das Artes – inelegível – Doda Pinheiro (Republicanos, expulso do PT) aumentou quase quatro vezes o patrimônio em apenas quatro anos e praticamente se tornou um milionário, conforme relação de bens que registrou na Justiça Eleitoral. Mas, segundo ex-assessores, Doda ainda não declarou tudo. O caso seria típico do cidadão que usou a política para enriquecer ilicitamente.

Conforme revelou o VERBO em dezembro, Doda iniciou no primeiro mandato de vereador, em 2013, a prática do esquema ilícito da “rachadinha”, em que o político embolsa parte do salário dos assessores e até de outros correligionários indicados na prefeitura. Segundo a denúncia do primeiro chefe-de-gabinete do parlamentar, José de Arimateia, o Ari, Doda cobrou inicialmente um “modesto” valor do chamado “pedágio”, mas passou a exigir mais.

Doda começou a ficar com parcela do ganha-pão dos assessores mal esquentou a cadeira de vereador, inclusive como presidente da Câmara. Envolvida com ele, a equipe que trabalhou na campanha inicialmente concordou em dar uma “caixinha”, espontânea e em prol do mandato. Em janeiro de 2013, porém, Doda exigiu a “rachadinha” de cada assessor. Àquela altura, menos de Ari, que só foi avisado depois, confirmou outro ex-assessor à reportagem.

Em março de 2013, pouco mais de dois meses como “braço direito” de Doda, Ari foi surpreendido. “Ele me chamou, só eu e ele no gabinete, para dizer que queria mudar a regra. Não era mais uma caixinha, e não mais espontânea, teria o valor que ele ia estipular. E alguém ia ficar com a atribuição de receber isso. Eu seria essa pessoa”, revelou Ari. Doda já tinha tratado com os demais assessores que a “rachadinha” seria de 20% do salário de cada um.

Para entregar a Doda, Ari deveria cobrar não só dos assessores na Câmara, mas dos apadrinhados políticos que o vereador tinha empregado na então gestão Chico Brito (então PT). “Eu falei: ‘Não vou cobrar isso de ninguém’. Eu teria que cobrar de todos os funcionários, do gabinete e da prefeitura, dos cargos que pertenciam a ele. No início, eram 15 cargos. Cada funcionário teria que entregar de 10% a 20% [do salário]”, contou o ex-chefe-de-gabinete.

Fora o salário como vereador, de mais de R$ 10 mil, Doda embolsou de “rachadinha” dos assessores na Câmara quase R$ 4 mil por mês, em 2013, sem contar o captado entre comissionados que pôs na prefeitura. “Era 20% de cada [salário bruto], não era nem do líquido. O chefe-de-gabinete recebia na época, eu recebia R$ 7 mil, [dava] R$ 1.400. Os outros recebiam [cerca de] R$ 5 mil, R$ 4 mil e R$ 3 mil. [Total de] R$ 3.800. Isso só na Câmara”, frisou Ari.

Ari estipula que Doda, além dos R$ 3.800, tenha embolsado quase o dobro a mais dos funcionários na prefeitura, ao ter tido no governo “R$ 30 mil em cargos” – empregou número de pessoas com salários que totalizasse tal teto. “Dá R$ 6 mil [que recebeu]”, contou. Ele teria recebido cerca de R$ 9,8 mil/mês, quase outro salário de vereador, livre. “E não era para ficar para o mandato, era para entregar na mão dele, era dinheiro que era dele”, explicou.

Ari pôs o cargo à disposição. Exonerado por Doda, foi para o governo, mas a desfaçatez do vereador não parou, pôs outro assessor para a coleta, Wanderley Leite. “Fui trabalhar na prefeitura – salário de R$ 3.500. O Wanderley veio até mim para eu pagar. Falei: ‘Já disse para ele: não paguei quando era R$ 7 mil, vou pagar quando é R$ 3.500? Não pago! E volto a dizer: não perturbe meu pessoal! Se me disserem que foram lá cobrar, estão ferrados.”

Ari condena o ato de Doda. “É contra a lei. E não foi o combinado. Em 2012, quando estourou caso com um vereador, perguntei: ‘Você vai cobrar pedágio dos funcionários? [Ele:] ‘Nunca’. Ele já tinha maldade, foi muito rápido, no primeiro mês já veio com a ideia. E depois foi aumentando”, afirmou. Hoje, aliado do prefeito Ney Santos (Republicanos), Doda embolsaria pelo menos 50% do salário de assessores e funcionários indicados na prefeitura.

Apesar de estimarem, os denunciantes não cravavam a cifra juntada por Doda, mas agora não se surpreendem. Em 2012, Doda declarou à Justiça Eleitoral bens de R$ 220.000, valor da residência e de um carro popular. Em 2016, após começar a “rachadinha”, adquiriu mais um imóvel e uma caminhonete, apesar de o patrimônio não ter se alterado muito – R$ 262.000. Já neste ano, ele registrou ter posses de R$ 996.784,19 – quase um milhão de reais.

Doda declarou entre oito bens – não mais dois apenas – um sobrado de R$ 225.000 e um apartamento, em Taboão da Serra, de R$ 409.000. Um ex-assessor diz que ele “esqueceu” de registrar o produto da “rachadinha”. “Ele deixou de falar mais coisinhas, o dinheiro vivo [arrecadado] em casa”, disse à reportagem. Indagado sobre a “rachadinha” à época da denúncia de Ari, Doda se esquivou. Questionado agora sobre o salto patrimonial, ele não respondeu.

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