ANA CAROLINA RODRIGUES
Especial para o VERBO ONLINE, em Taboão da Serra
Uma mulher de 55 anos moradora de Taboão da Serra se acorrentou em uma pilastra do plenário da Câmara durante a sessão no fim da manhã desta terça-feira (2), no retorno dos trabalhos de votação após o recesso dos vereadores. Joselina Maria Rodrigues Garcia protesta contra a exclusão dela e de mais 150 famílias de projeto de moradia popular do movimento Bem Viver. Ela colocou a corrente nela ao meio-dia e até o fim da noite se mantinha presa pela cintura.
Joselina estava inscrita para falar na tribuna da Câmara e ao usar a palavra criticou os movimentos habitacionais Bem Viver e Família Feliz, que serão beneficiados com a construção de 500 apartamentos por meio do programa federal Minha Casa, Minha Vida no Jardim Salete. Ela afirma que não existe motivo e nem explicação nenhuma da diretoria para a exclusão dela e das outras famílias, que estavam em dia com o pagamento das mensalidades até a medida.

Joselina fez uma chamada ao iniciar a fala e depois de dizer o nome de todos os vereadores reclamou atenção. “Estou falando diretamente com vocês, esta é a terceira vez que eu venho nesta Câmara pedir a mesma coisa, pedir justiça, e eu quero justiça, eu quero resposta, e não é pra mim, é para 150 famílias”, disse a moradora, que se manifestou muito emocionada. Ela contou que foi a primeira secretária da Pastoral da Moradia, organismo da Igreja Católica, na cidade.
Joselina disse que foi arrancada da função pela então agente Terezinha Genuário, atual coordenadora do Bem Viver, segundo a moradora. “A senhora Terezinha Genuário disse no dia 27 de outubro que recebeu da mão do monsenhor Aguinaldo [do Santuário Santa Terezinha] uma autorização para montar o Bem Viver. Mentira! Ela arrancou a Pastoral da Moradia, ela está arrancando 151 famílias do Maria Helena. Eu, Joselina, peço justiça a esses vereadores”, clamou.
Joselina reforçou o apelo. “Eu peço, senhora presidente da Comisão de Direitos Humanos, não uma audiência pública, porque assim não tem câmera para filmar a gente, como aconteceu dia 1 de março”, disse, ao relatar ter sido ofendida por assessora do vereador Moreira (PSD). “Fui no gabinete dele para tratar deste assunto pessoalmente. Ela falou que fui lá para tratar do projeto Santa Terezinha 3. Não senhor, o senhor disse que não responde pelo projeto”, contou.
Ela já ameaçava durante a fala se acorrentar no plenário da Câmara. “Se eu não tivesse prova no Senac e com meu irmão internado no Hospital das Clínicas, eu iria me acorrentar aqui, até vocês resolverem essa situação para as 150 famílias. Hoje é o último dia que uma pessoa da sociedade civil pode usar a tribuna por causa da eleições”, disse. Após discursos de alguns vereadores, a moradora não se conformou com a falta de solução e se prendeu a pilastra.
O vereador Moreira foi também à tribuna dar explicações sobre o caso. “Fui bastante citado pela Joselina, que é uma pessoa por quem tenho grande respeito. Ela conversou comigo e eu falei pra ela que a Família Feliz é uma entidade idônea, tem um trabalho muito sério na cidade e vai beneficiar 500 famílias, cada uma vai pagar 25 reais por mês, durante dez anos. E que só está dependendo do laudo da Cetesb [órgão ambiental] para poder iniciar as obras”, disse.
Ele disse que falou para a mulher que não administra a Família Feliz. “Não administro nenhuma entidade, o que eu faço é prestar apoio às lutas populares, todas as causas que me procuram eu dou toda atenção. Em relação ao que foi decidido, também a atendi, só que o Família Feliz é soberano nas suas decisões, há decisões que a gente concorda, há decisões que não concordamos, mas elas são tomadas pela assembleia, sempre em assembleia”, esclareceu Moreira.
Joselina reafirmou que a expulsão foi injustificada e disse que só irá se desacorrentar quando for aceita de volta pelos movimentos habitacionais. Terezinha foi até a Câmara Municipal tentar um acordo e ofereceu marcar uma reunião para discutirem o assunto, mas a moradora não aceitou. A presidente do movimento Bem Viver disse que as famílias foram excluídas do projeto em assembleia por discordarem dos termos aprovados pela maioria dos beneficiados.
O presidente da Câmara, Cido (DEM), disse que não irá interferir no protesto da moradora e determinou que a Guarda Municipal, que chegou a ser acionada, não a tire à força da Casa. Por volta das 21h, o vereador pediu a presença de ambulância do Samu, que fez exames na mulher, que está em pé e sem comer desde o meio-dia. Os resultados foram normais. A reportagem apurou que, por volta das 23h50, ela ainda permanecia acorrentada no local – 12 horas.





