ADILSON OLIVEIRA
Especial para o VERBO ONLINE, em Taboão da Serra
“Eu só tenho ele, é meu único filhão!”, desabafa o motorista de caminhão Reinaldo Vieira Pinto, 48, pai de William Miguel Vieira, 21 anos. Com quadro muito grave, em coma induzido, lesionado no cérebro e no fêmur, o jovem é uma das seis pessoas que sofreram um grave acidente de automóvel em rua paralela à rodovia Régis Bittencourt na altura do retorno do Parque Pinheiros, em Taboão da Serra, na madrugada do dia 22 de fevereiro, que matou dois dos ocupantes de um Gol, ambos de 18 anos – Victor Henrique Salomão e Dayane Aparecida, namorada de William.
Encontrado pela reportagem, o pai faz um depoimento emocionado sobre o filho, que chama de Grandão – com 1 metro e 93 centímetros de altura e 92 quilos -, relata que William estava com a namorada no colo na hora do acidente, sem cinto de segurança. Vieira afirma que a batida contra um poste e muro na via ocorreu a 130 km/h e não foi fatalidade. “Excesso de velocidade já é um pouquinho de abuso.” Ele diz ainda que testemunhas no local perceberam que o advogado Jorge Luiz Alves Silva, 26, estava “bêbado” ao volante – ele já saiu do coma e deixaria a UTI ontem. Leia a seguir:
@@@
QUADRO DE WILLIAM
“Ele está no [Hospital] Geral [do Pirajuçara], em coma induzido, mas a pressão do cérebro permanece [estável], os batimentos cardíacos permanecem [estáveis]. O médico falou que está em coma induzido para não forçar ele [para diminuir a pressão no cérebro], para não forçar, mas é gravíssimo o quadro dele. Ele ficou de tirar o dreno da cabeça, mas resolveram não tirar, ele pegou uma pneumonia [o dreno foi retirado ontem, domingo]. Mas a cirurgia na cabeça foi feita, ele reagiu bem, foi feita cirurgia no fêmur, que quebrou em três lugares, e também reagiu bem. O médico disse: agora é com ele e Deus, não podemos ter pressa. Mas a gente tem fé que ele vai retornar.”
FERIMENTOS
“Foram mesmo na cabeça e no fêmur, e escoriações no braço. Não chegou a sofrer afundamento do crânio. Ele está inconsciente [desde o acidente]. Não fosse o resgate, na hora o entubaram, e conseguiram chegar aqui [HGP] a tempo de fazer a cirurgia. Agora é aguardar, dar tempo ao tempo. Tudo aconteceu do lado direito dele.”
EXCESSO DE OCUPANTES
“Atrás estavam quatro [no carro]. O William estava atrás do passageiro, no lado direito, estava na janela mais a Dayane [Aparecida, que morreu], que receberam a batida [o impacto] no muro – ela estava sentada no colo do meu filho. O Vitinho no meio, e Fabinho [Fabio Silva, que menos se feriu] do lado esquerdo, atrás do motorista. Na frente, o Jorginho e a Taize. [Quase todos] Usavam cinto de segurança, só não o meu filho e a namoradinha dele. Também não tinha como, meia dúzia dentro de um carro, de um Golzinho pequeno.”
BALADA SERTANEJA
“Ele foi com o pessoal, foram fazer um show, no Cariocas Club Interlagos, eles têm um grupo de dança sertaneja [Charmy Dance]. Iam se apresentar lá, eles se apresentaram, e estavam vindo embora quando aconteceu isso.”
REAÇÃO
“Quando o acidente aconteceu, às 5 horas da manhã, eu estava trabalhando. Ele foi resgatado às 5 e meia da manhã, e só fui saber às 11. Não queria acreditar de jeito nenhum. Peguei meu carro e fui para lá. [No hospital] Ele passou de maca vindo da sala de trauma, para tirar raio-x da cabeça. Quando olhei, fiquei sem chão, não era eu que estava ali! Eu não consegui chegar perto dele, do jeito que estava sentado fiquei. Por causa da emoção, é filho, é um pedaço meu! Minha mulher, a mãe dele, que tem problema de pressão, passou mal, precisou ser medicada.”
ABALADO
“Por causa do que aconteceu, estou até agora [uma semana] sem trabalhar – sou motorista de caminhão. Liguei para a firma, [o patrão] entendeu que eu não tenho condição psicológica de trabalhar com o filho internado, falou: ‘Vai cuidar do seu filhote, seu pivete’ – estava com férias vencidas e me falaram então para tirar. Estou aqui conversando com meus amigos. [O vizinho interrompe: ‘É para ele desabafar um pouquinho, os amigos servem para isso’]. Tem nego que olha [o vê no bar] e fala: ‘Olha o pai do William, está bebendo”. Estou bebendo meu café. Só quem sabe da minha vida é minha família e Deus. Só vou voltar a trabalhar quando ele sair de lá. Ele indo para o quarto, para mim, já é uma grande bênção. Eu só tenho ele, é meu único filhão!”


CARINHOSO
“Ele é uma pessoa carinhosa, cara! Você fala com o William que está com frio, ele tira a blusa e dá para você vestir. É uma pessoa que está lado a lado com todo mundo. Ele não bebe, não fuma, tem o cabelo arrepiado para cima. Aos 9 anos, ia trabalhar comigo no caminhão, me ajudava em tudo. Sempre foi assim: ‘Bença, pai’. E me dava um beijo na face. ‘Bença, mãe’. E dava um beijo na mãe [a dona de casa Sônia Maria Miguel, 49]. É uma pessoa maravilhosa, é pau para toda obra, inclusive até a supervisora dele já foi visitá-lo, deu força para a mãe dele – ele trabalha na Tim… É, é difícil, meu único filho. Quando entro naquela sala [da UTI], retrocedo no tempo, lembro de quando ele era criança, com 2 ou 3 anos. Falava: ‘William, não faz isso, não faz aquilo”. Uma semana antes do acidente, ele chegou para mim: ‘E aí, coroa, hoje não vai trabalhar, não, vamos jogar videogame?’. Eu o chamo de Grandão. Falei: ‘Peraí, Grandão, vou tomar banho e vamos jogar, vamos ver se é bom mesmo’. O Face dele está lotado [de mensagens de amizade e afeto], em casa tem uma pessoa só para atender telefone, o homem é querido por todos. As pessoas falam: ‘Reza, reza, não queremos perder ele de jeito nenhum’. Ele é uma pessoa muito querida.”
ESCOLA
“Ah, na escola ele era o nerd, era o ‘eu sei tudo’. Tirava notas boas! Estudou no Heitor [E.E. Dep. Heitor Cavalcanti Alencar Furtado, no Jardim Freitas Jr.], terminou a [antiga] 8ª série, começou e terminou o primeiro, fez o segundo e, não sei por que motivo, parou. Disse para a mãe: ‘Vou dar uma segurada, preciso trabalhar para ajudar vocês’. Mas ele fala em fazer faculdade. O negócio dele é eletrônica, computador, ele é nota dez. Ele já me falou: ‘Pai, o sr. vai me ajudar na faculdade?’ Eu falei: ‘Filh0, eu não vou te ajudar, eu sou obrigado a te ajudar, você é meu único filho, meu grandão. O que você precisar, o pai está aqui’. Ele pede: ‘Pai, precisava de R$ 200 para comprar fralda da Milena’. E eu: ‘Toma os R$ 200’. Ele tem a minha netinha, a coisa mais linda do mundo! De 1 ano e 3 meses. É a vida dele. Tenho certeza que ele vai voltar para a gente por causa da filha, dos pais dele, enfim, de todos os amigos. Eu falo isso e sinto um aperto no meu coração.”
NAMORO
“Eles [William e Dayane] namoravam há um mês, um mês e meio, parece que estavam ficando ainda. Para falar a verdade, a Day, eu não conheço [conheci]. Dos amigos dele que estavam no carro, só conheço o Fabinho, que vai em casa… Eram da turma dele de dança, entre eles jovens, a gente que é coroa…, sou uma pessoa muito reservada, gosto de ficar no meu canto. Eu vi a Day só uma vez, em casa, mas de relance. Mas pelo pouco que a vi, e conversando com minha esposa, ela é [era] muito simpática, muito observadora e muito educada. E a família, idem. Eu não conhecia os pais, conheci no velório. A mãe dela, pelo pouco de conversa com minha esposa e comigo, é muito guerreira.”
SOLIDARIEDADE NA DOR
“O que digo para a família da Dayane foi o que falei no velório. Eu não vou falar que vou sentir muito, é uma palavra muito forte. Falei para ela [mãe]: ‘Força! Força!’ Era uma menina de 18 anos, ia para a igreja também… Só pedi força, e Deus vai fortalecer a família. Era uma menina… sem palavras. Era educada, boa índole, uma pessoa maravilhosa… A única coisa que peço às famílias dos que morreram e estão no hospital é para terem fé, acreditar em Deus, Deus escreve certo por linhas tortas, é o pai de todos os pais.
FATALIDADE?
“Bom, excesso de velocidade não é fatalidade, né? Excesso de velocidade já é um pouquinho de abuso. Segundo informações de terceiros, eles estavam a 130 km/h.”
MOTORISTA
“Eu fiquei sabendo que ele tinha ingerido álcool, soube por terceiros, só quem pode falar quem estava junto. [Mas] Várias pessoas falaram que ele estava bêbado.”
LIÇÃO
“Eles devem falar para si mesmos: ‘O que fizemos?’ O aprendizado disso é não ingerir isso aqui [aponta para uma garrafa de cerveja sobre a mesa consumida pelos amigos] e misturar com direção. Não abusar da velocidade. Não ter excesso de ocupantes dentro do carro. [Usar] Cinto de segurança, que é obrigatório.”
PEDIDO
“Eu não fui no local após o acidente. Ali é o meu caminho do serviço, mas só passo, vejo onde foi, me dá um aperto [no coração]. Procuro nem olhar, eu olho para outro lado, cara, evito. Estou sofrendo bastante, bastante mesmo. Eu não durmo, entro em casa e sinto o perfume dele. Mas tenho certeza que vou ter o meu grandão em casa. A única coisa que eu quero é meu filho com saúde e do meu lado de novo. Vamos cuidar da filha dele, ele vai voltar a trabalhar e cuidar dela. Eu quero que ele me enterre, a pior coisa do mundo é um pai enterrar um filho. Não consigo falar mais nada no estado em que estou…”





